- Década de 50
- As emissões regulares
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O crítico de TV de um jornal diário procurava entender o cenário, novo, do entretenimento que o espectador da RTP começava a privilegiar: “Realizar um programa de teleteatro equivale a movimentar de uma vez a totalidade dos recursos da estação: artísticos, técnicos e de organização. Mobilizam-se todos os meios do estúdio. Põe-se à prova a preparação, competênciae sensibilidade artística do pessoal, desde o iluminador aos operadores de câmara e de regência, desde o simples assistente de microfone ao montador de som. A arquitectura dos cenários, a riqueza ou a miséria do guarda-roupa ou dos adereços, a composição dos tipos, o tom da caracterização, o gosto da decoração, associados ao desempenho da marcação, ao nível da representação e da planificação do som e da imagem – tudo conta num espectáculo de teleteatro.”11 Pode dizer-se que sim, que tudo contava. Até mesmo quando o inesperado tinha um indelével sabor anedótico. As coisas passaram-se assim, quando o directo não permitia recuos, emendas desde que não se desse muito por isso e a presença de espírito era tão necessária como saber o papel ou as marcações de cena: decorria no estúdio – logo, estava “no ar” – uma peça de teatro. O cenário tinha uma porta que, mais metro menos metro, coincidia com uma das verdadeiras portas do estúdio. O presidente do Conselho de Administração da RTP, que bem gostava de conhecer os cantos à casa em que mandava, não ligou à luz vermelha acesa sobre a porta real, abriu-a e, de imediato, vendo a outra (a do cenário) fez-lhe o mesmo. Quer dizer... entrou em cena. Dois dos artistas, Fernanda Borsatti e Carlos José Teixeira estavam ali mesmo, como se calcula um tanto ou quanto atónitos com a invasão de que o PCA não se apercebeu, de todo. Deu-lhes as boas-noites e apertou-lhes as mãos. Num segundo os actores recompuseram-se e dominaram a situação. “-Quem é?”, perguntou Carlos à Fernanda. E esta sem pestanejar, com incrível desembaraço, “-É o meu primo Joaquim que chegou de Viseu. Julgava que te tinha dito que ele vinha.” Resposta do Carlos, “-Então muito gosto em vê-lo por cá, primo Joaquim.” O PCA terá então percebido que se alguém estava ali a mais era ele e, lesto, saiu em frente, onde o cenário rompia. “-Ele vem cá passar uns dias”, disse, ainda, a Fernanda que, assim, “despachava” aquele berbicacho. Lá mais acima, na régie, o realizador pedia, com insistência, um copo de água.
Mas não se pense que o teleteatro monopolizava o interesse dos espectadores da RTP, que iam crescendo, em número, todos os dias – apesar de, naturalmente, e como se disse, esse ser espectáculo de grande aceitação, talvez porque, pela primeira vez, ele chegava onde nunca fora antes. Também as rubricas musicais, de características ligeiras, começaram a ser cartaz popular, dando um rosto aos cançonetistas nacionais e a alguns estrangeiros que apenas se conheciam dos discos “batidos” na rádio. E eram, não só, os espectáculos de variedades, onde era possível ver, por exemplo, o pianista Shegundo Galarza dirigindo a sua orquestra de violinos; ou “Canções a Granel”, onde sempre estavam as vozes em moda;ou, sobretudo, programas que bem enlaçavam as cantigas com o humor, geralmente confiados a “especialistas”, quer na escrita (José Galhardo, Fernando Santos, Carlos Lopes) quer na interpretação (Costinha, Emílio Correia e Humberto Madeira), para daí resultar, exemplo típico, “Os Três Saloios”, uma produção de Fernando Garcia com realização de Ruy Ferrão. E foi assim, na mesma linha, que vieram os “Televizinhos”, de Aníbal Nazaré para Vasco Santana e Elvira Velez; “A Loja da Esquina”, de Francisco Mata e Nelson de Barros; e “A Anedota da Semana”, onde Vasco Santana geria, pelo melhor, a sua quota de popularidade, o que acontecia ao sábado à noite – infelizmente durante poucos.12 Talvez não tão acertada, pelo menos aos olhos da crítica, mas sem deixar de ter o seu público (o grande juiz), uma adaptação de “O Morgado de Fafe em Lisboa”, que Artur Agostinho protagonizou.13 “Lisboa à Noite”, lugar de muitos fados, recinto por onde iam passando os nomes que o público mais admirava, tornou-se, por isso mesmo, das rubricas mais populares. Foi a realizar uma das suas edições que se estreou Fernando Frazão, mais um locutor da Emissora Nacional vencido pelo fascínio das régies. Antes, durante alguns meses, estivera no Brasil, a estagiar na TV Tupi, na altura uma das mais prestigiadas estações da América Latina. O quadro de realizadores da RTP contava, pois, com um novo elemento.
De quem se falava, e porque se falava (em domínios vários da vida nacional), falou, também a RTP, nos seus primeiros meses de actividade. “Miradoiro” era um programa de entrevistas, jeito de frente-a-frente, umatribuna de opinião, por vezes um palco de controvérsia. Uma área que privilegiou a cultura e onde, como entrevistadores, se tornou habitual ver David Mourão-Ferreira, Leopoldo Nunes, Jorge Alves, Nuno Fradique, José Amado e Gomes Ferreira. Pela rubrica “Esta Palavra Saudade” (produção de António Feio) passaram figuras gradas da vida artística e cultural portuguesa – todas recordando coisas que o público gosta de saber, divagações, sentimentalismos, um certo ajustar de contas com o passado. Duas rubricas dos primórdios da RTP, merecedoras de evocação, já que ajudaram a compreender como é sensível a linha de intimidade que a TV estabelece entre os muitos que estão de um lado do pequeno ecrã e os poucos que estão do outro.
11 “Orticon”, Diário Popular, 16.3.1957.
12 Vasco Santana faleceu a 13.6.1958.
“A Anedota da Semana” era uma rubrica da AIE – Agência Internacional de Artistas, com o patrocínio da “Casa Campeão” que assim se tornou um dos primeiros anunciantes da RTP.
13 Artur Agostinho gosta de recordar que pelo seu trabalho, de ensaios e emissões, esteve para receber 2 700$00. O dr. Stichini Vilela também deve ter achado que era pouco, pelo que mandou que se fizesse um arredondamento para... 3 000$00.






