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Quando tudo começou

Como em tudo na vida, também a data verdadeira de início da televisão em Portugal é objecto de discussão. Para uns, foi em Setembro de 1956, quando, num perímetro reduzido à volta da Feira Popular, começaram as emissões experimentais em Lisboa. Ou em Dezembro do mesmo ano, com o segundo ciclo de experiências alargadas à cidade e arredores. Para outros, terá sido a 7 Março de 1957, data oficial das primeiras emissões “a valer”, com as grandes áreas de Lisboa e Porto já abrangidas. Mas ainda há a data legal, a da aprovação do decreto-lei que cria a RTP, em 1955. Assim como a de uma experiência feita no Porto, em 1956, por empresa comercial. Ou, finalmente, a data de chegada das imagens à minha terra, esta sim, efeméride real para tantos portugueses. É a data que eu prefiro. Foi em 1958.

Apenas a cem quilómetros do Porto, Vila Real não ficava só para lá do Marão, ficava no fim do mundo. Para se ir de comboio até à “capital do Norte”, tinha de se passar primeiro pela Régua. Eram 25 quilómetros de via reduzida. As carruagens, muito estreitas, eram iguais às que víamos nos filmes do “Far West”. Por isso o comboio tinha a doce alcunha de “Texas”. Este demorava, ao longo de curvas apertadas do vale do Corgo, mais de uma hora para percorrer aquele curto trajecto. Depois, até ao Porto, eram duas a três horas de esperas e apeadeiros. Em alternativa, o carro ou a “carreira” tinham de percorrer as famosas “voltinhas do Marão”. Duas a três horas de enjoo, curvas e perigos. Não se ia ao Porto. Ninguém se deslocava ao Porto. Ia-se de viagem, o que era diferente. Levava-se mala, cesta e farnel. E garrafão. Mas, para a maior parte, essas viagens eram raras. Ora, havia outras necessidades, outras urgências. Assim, quando se precisava de alguma coisa da cidade, do Porto, documento oficial, renda ou medicamento difícil, era necessário recorrer ao “recoveiro”, um senhor que ia todos os dias de madrugada e regressava à noite com as encomendas que íamos, ansiosos, buscar à estação de caminho-de-ferro. Trás-os-Montes não ficava ali. Ficava longe.

Três jornais locais, verdadeiras folhas de couve, faziam a crónica do lugar. “A Voz de Trás-os-Montes” (“A Voz de Trás”) pertencia à diocese, era impressa nas tipografias do seminário e sempre foi dirigido por um sacerdote. O “Vila-realense” era republicano, feito, do princípio ao fim, pelo senhor Heitor Matos, com a ajuda de um extraordinário amador, o José Rocha, e um cronista do outro mundo, o “Naralhas”, especialista em necrologia. O “Ordem Nova” era, obviamente, da União Nacional, estava em todo o sítio e ninguém o lia.

As notícias importantes vinham do Porto. Quatro diários disputavam o mercado: o “Primeiro de Janeiro”, o “Comércio do Porto”, o “Jornal de Notícias” e o “Diário do Norte”. Custavam oito tostões, preço igual ao do café. Não parece, mas eram caros. A maior parte das pessoas que sabiam ler iam fazê-lo nos cafés ou nas associações. Os diários do Porto chegavam todos os dias, mas sem horas fixas: por vezes de manhã cedo, geralmente mais perto do meio-dia. Os jornais de Lisboa eram raros. Só chegavam ao fim da tarde ou no dia seguinte. Quase ninguém os tinha ou lia. Os meus amigos e eu íamos ler ao “Clube de Vila Real”, a associação da burguesia liberal da cidade e dos notáveis vagamente republicanos, simpatizantes dos Rotários. Ali nos deleitávamos com o “Diário de Notícias” e “O Século” dos dias anteriores. Tínhamos 16 anos, líamos tudo e achávamos que Lisboa era o princípio do mundo. Os anúncios dos cinemas eram objecto de leitura atenta e inveja intensa. O exercício tinha o seu quê de masoquista: a maior parte dos filmes que acabavam de estrear em Lisboa (às vezes, no Porto) demoraria longos meses ou anos antes de chegar a Vila Real. Se chegassem.

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