voltar à homepage do site
separadorseparadorseparadorseparadorseparador
 

Início  |  Fimseparador< anterior - Pag.1 / 22 - próxima >separadorir para a pag. 


  • Década de 60
  • No Reino do ''Directo''
  • pag1

Naquela época, havia “descuidos” que saíam caro. Por exemplo: “a passagem em frente das câmaras durante as emissões ou o simples aparecimento indevido em campo, será punido com multa correspondente a 3 dias de vencimento.”1 Tal severidade não chegava às moscas nem aos mosquitos, que podiam passear-se livremente, ficando-se, quando muito, por pertinente anotação no “relatório de deficiências verificadas na emissão”. É de ver o do dia 21.10.1960, que registava às 21h. 43m. 56s. (!) no programa de João Villaret, “moscas no estúdio”, por causa “indeterminada”... Uma “praga” que vinha das origens da RTP, esta da “mosca da Televisão” que – vejam só – uma notícia de imprensa dera por extinta 3 meses antes. Saboreie-se a prosa: “Segundo os telespectadores têm verificado, não era ‘blague’ ter-se conseguido acabar com as moscas no estúdio da RTP. Infelizmente, não há quem não tenha experiência própria das dificuldades que se apresentam a quem se disponha a limpar de tão antipáticos frequentadores qualquer espaço que seja. Depois de utilizar, sem resultados eficazes, as portas de rede e outros processos dispendiosos, a RTP recorreu aos Serviços de Sanidade e Higiene Rural (...) conseguindo-se, finalmente, chegar a resultados parece que definitivos.”2 A mosquinha achou graça e continuou a apoquentar os narizes dos srs. locutores por muitos anos mais.

O quotidiano do Lumiar também se “alimentava” destes pequenos incidentes, ao tempo em que no pátio, a que se chegava depois de transpor a cancela (e o estado de alma do porteiro), andavam, à-vontade, os cento e poucos funcionários da altura, mais colaboradores, convidados, familiares, amigos e outros eventuais. Segurança? Disso se falaria no futuro. Para o estúdio, área técnica, administrativos, filmoteca e carpintaria entrava-se por essa ante-câmara ensaibrada, com um passeio estreito e uma árvore de pouca sombra e nenhuma resistência aos carros – foi “atropelada” várias vezes. A quem apetecesse uma bebida ou dispusesse de apetite para o cardápio do dia só restava cruzar esse mítico pátio, se queria satisfazer-se. À direita de quem entrava, era o balcão para as pressas dos cafés; logo a seguir, um placar onde os visitantes mais ilustres iam deixando os respectivos autógrafos (que será feito dessa preciosidade?); e, depois, tudo o resto eram 8 ou 10 mesas forradas a quadradinhos azuis e brancos, dentro do tradicional, sendo que algumas delas dispunham de esquálidas jarrinhas (que, felizmente, se iam partindo) com uma flor de plástico a flutuar ( que, felizmente, o pessoal de mau gosto se encarregava de ir subtraindo). Era assim, visto por largo, o bar-restaurante da RTP no Lumiar, onde amiúde chegava o frenesim dos dias e das noites de trabalho, mas onde havia, por vezes, tranquilos tempos de pausa, a favor, principalmente, de um ou outro actor desempregado ou figurante que aí abancavam à espera de chamamento para uma “pontinha”, num teleteatro ou numas variedades. Estamos ainda a ver, lá ao fundo, o Sales Ribeiro, actor com a idade que tinha (muita), sempre rodeado de cafés (muitos) que os amigos por lá iam deixando. Ele era um dos mais fiéis para as tais “pontas”. Saía-se menos mal e “ó filho, isto dá-me cá um equilíbrio no orçamento...”. Era, ainda, um conversador inveterado, parado, embora, no seu tempo de glória em palcos de opereta, onde – diz-se – foi bom. O Sales é personagem nobre no anedotário da nossa TV, graças a uma meia dúzia de situações só possíveis naquela gloriosa época do directo. Vamos a uma: criado, vestido de impecável libré (“made in Anahory”), estava o Sales no “plateau”, imponente na boa figura que ainda tinha, altura meio curvada, cabeleira branca, e em vez de dizer a fala que lhe competia no 1º acto daquele teleteatro, decidiu-se por aviar todas de uma assentada: a do 1º e a do 2º. E, depois, foi-se à vida, que é como quem diz, para casa. Despiu a farda e largou rampa abaixo. Só não chegou ao eléctrico (que ainda havia...) porque um assistente, atento como lhe competia, correu atrás dele para o segurar e o Sales lá voltou ao “plateau” e à fala correcta, no momento adequado do 2º acto. Ainda assim, para ter tempo de vestir a libré, houve que por “no ar” aquele indesejável “pedimos desculpa por esta interrupção...”. E o dr. Renato Santos (férreo chefe administrativo dos estúdios) só lhe não foi ao “cachet” porque houve pedidos... E já agora, outra, a última: o Sales tinha péssima memória, razão porque não lhe eram atribuídos papéis que exigissem muito texto. Porém, à cautela, não fosse o diabo tecê-las, o assistente de realização punha-lhe sempre um auricular no melhor ouvido e era por aí que lhe chegava a voz do ponto. Sales sentia-se seguro. Só que, uma noite, representava-se teatro, houve um qualquer erro de comutação do auricular que comunicava com a régie e em vez de o ligarem ao ponto ligaram-no a uma via musical. Em cena, o Sales não respondeu à primeira deixa, nem à segunda, menos ainda à terceira. Para desespero do actor que com ele contracenava (Alexandre Vieira, se não estamos em erro) o Sales continuava tão mudo como uma parede. Até que, de repente, começou aos gritos: “só oiço música, só oiço música...” Aexperiência do Alexandre salvou a situação.

menu de artigos

O locutor Gomes Ferreira na portaria dos estúdios do Lumiar

O autógrafo de Juscelino Kubitscheck de Oliveira, Presidente do Brasil

O bar-restaurante-sala de convívio para funcionários e colaboradores. Primeiro plano: Joaquim Filipe Nogueira e filhos

Em directo do estúdio, Sales Ribeiro preocupado com a égua, que Rudolfo Neves parece controlar


1 Comunicação de Serviço nº 3 (Serviços de Produção), 13.5.1957. Já a Comunicação de Serviço nº 1 (18.3.1957) chamava a atenção do assistente de realização para o facto de “quando em serviço no estúdio, não só dar o exemplo de não falar nos períodos em que os microfones estão abertos, Ver maiscomo velar pela estrita manutenção de absoluto silêncio (...), devendo ter especial cuidado em não passar em frente das câmaras quando a emissão está ‘no ar’.” Voltar a fechar

2 Rádio e Televisão, 28.9.1957.

diminuir letra aumentar letra Imprimir Enviar

< anterior | próxima >

Footer