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  • Década de 50
  • TELEVISÃO: uma história com muitos protagonistas
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Invento de muitos inventores, datado de muitas datas e reivindicado por muitas nacionalidades, a Televisão tem, na sua proto-história, um nome e um ano: Jakob Berzelius, 1817. As tarefas científicas e técnicas que se seguiram não os podem ignorar. Químico sueco, Berzelius descobriu que num novo elemento, o selénio, a condutibilidade eléctrica aumentava sob acção da luz recebida. Anos depois (1873), o inglês Willoughby Smith concluía que o selénio “tinha a propriedade de transformar a energia luminosa em energia eléctrica”, o que deixa antever a possibilidade de transmitir imagens por meio de corrente eléctrica. Joseph May, que trabalhava no posto telegráfico de Valentia, na Irlanda, navegou pelas mesmas águas e cimentou a descoberta do efeito fotoeléctrico, já que concluiu que umas quantas barras de selénio deixadas à luz solar variavam na sua resistência eléctrica. Tais variações proporcionavam sinais eléctricos que, consequentemente, podiam ser transmitidos à distância. A princípios idênticos se juntou, dois anos mais tarde, o americano Georges R. Carey, que idealizou um sistema baseado em dois painéis, sendo que um estava coberto de células de selénio e o outro de igual número de lâmpadas incandescentes. Ambos se ligavam, entre si, unidade a unidade, por fios condutores. O primeiro conjunto era como que o olho humano; o segundo, com a sua teia de cabos, semelhava-se ao nervo óptico. Assim se chegava à reprodução do mecanismo da visão por meios eléctricos. Só que tal sistema, não deixando embora de representar novo passo de conquista, era pouco prático, pois requeria elevadíssimo número de condutores e transmitia as imagens em globo – isto é, não como seria desejável, elemento por elemento ou, melhor ainda, linha a linha. É nesse mesmo ano de 1875 que o alemão Kerr inventa a célula que recebeu o seu nome e que tornou possível converter as variações de tensão eléctrica em variações luminosas. Trata-se, pois, do primeiro tradutor corrente-luz a ser utilizado pelos vários experimentadores nas suas instalações de recepção, sendo a célula de selénio resguardada para uso na emissão.

É por esta altura que se deve fazer entrar em cena um professor da Academia Politécnica do Porto, Adriano de Paiva,1 que, entusiasmado com o telefone de Bell e não perdendo de vista a descoberta de Berzelius, enuncia, também ele, a sua descoberta, traduzida na aplicação do selénio à transmissão de imagens à distância – o chamado telescópio eléctrico. Há que reconhecer o enquadramento de actividades científicas contemporâneas (como as de Smith, May e Carey) no trabalho que Paiva deve ter escrito em 1877 e que o conceituado jornal científico francês La Nature divulgou em Agosto de 1879. “Deverá considerar-se o professor portuense o primeiro a apresentar ideias concretas e por escrito, da transmissão e recepção de imagens à distância. Infelizmente é tarde para reivindicar esta posição a nível internacional e oficialmente porquanto, em 1881 (três anos depois de Paiva), o notário francês Constantin Senlecq d´Ardres escreveu e mandou publicar em várias línguas um trabalho em tudo idêntico à ideia do nosso Adriano de Paiva, com o título ‘Le Télectroscope’.”2 Senlecq enunciara o princípio da transmissão sequencial dos elementos da imagem e disso se aproveitaria, no ano seguinte, o seu compatriota Maurice Leblanc, que fez construir um apropriado dispositivo de espelhos oscilantes. Adriano de Paiva viu-se pois superado por conjunturas favoráveis à acreditação dos trabalhos franceses, o que só pode constituir espanto para quem não conheça a falta de apoio e a displicência com que, entre nós, se encara a criatividade. De há muito, como se vê. E foi do estrangeiro que Paiva ainda colheu, nos anos que se seguiram às experiências de Leblanc, algum reconhecimento pelo seu trabalho pioneiro, que certos estudiosos não apartam dos de Senlecq. O tempo se encarregaria de provar que não podem mesmo ser dissociados. Veja-se como são proféticos os últimos parágrafos do trabalho de Adriano de Paiva: “Com estes dois maravilhosos instrumentos (o telefone e o telectroscópio) fixos em um ponto do globo, o homem estenderá a todo ele as faculdades visual e auditiva. A ubiquidade deixará de ser uma utopia para transformar-se em perfeita realidade. Então, por toda a parte à superfície da terra, se cruzarão fios condutores, encarregados de importantíssima missão: serão eles os ductos misteriosos que conduzirão, até ao observador, as impressões recebidas pelos órgãos artificiais que o génio humano soube transportar a todas as distancias. E, do mesmo modo que a complexidade dos filamentos nervosos pode dar ideia da perfeição superior de um animal, esses filamentos metálicos, nervos de uma outra natureza, testemunharão, sem dúvida, o grau de civilização do grande organismo que se chama a humanidade.”

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Adriano de Paiva

Opúsculo editado no Porto (1880) apresentando a tese de Adriano de Paiva


1 Adriano de Paiva de Faria Leite Brandão nasceu em Braga, a 22 de Abril de 1847. Faleceu em 1907. Por descendência, recebeu o título de primeiro conde de Campo Bello. Cursou filosofia e matemática na Universidade de Coimbra, doutorando-se na primeira dessas disciplinas. Par do Reino e membro da Ver maisAcademia Real das Ciências de Lisboa, foi nomeado, em 1872, professor de química da Academia Politécnica do Porto. Poucos anos depois era lente proprietário da cadeira de física. Em Março de 1878 publicava na revista científica O Instituto, de Coimbra, um trabalho intitulado “A Telefonia, a Telegrafia e a Telescopia”, à época considerado brilhante e objectivo pela abordagem que fazia às tecnologias dominantes da actividade científica nos finais do século XIX: a fotografia, o telégrafo, o telefone, o fonógrafo, o microfone, o animatógrafo. Ao engº Manuel José Lopes da Silva, funcionário da RTP (desde as origens), professor e estudioso dos fenómenos da comunicação social, se deve, não apenas a revelação da existência do trabalho de Adriano de Paiva como a sua constante defesa e divulgação. Tem-no feito em inúmeros artigos de jornal, em revistas e no livro que escreveu de parceria com Vasco Hogan Teves, Vamos Falar de Televisão (Ed. Verbo - 1971). Em carta enviada ao director do semanário Tempo (Novembro de 1981) Lopes da Silva esclarecia, a propósito de nota anteriormente aí publicada sobre as origens da Rádio e da Televisão: “No caso da invenção da TV, parece que se não estabeleceram relações fáceis entre os historiadores do facto. Na realidade, o inventor da TV foi o professor Adriano de Paiva, da Academia Politécnica do Porto, que propôs tal sistema numa ‘memória’ publicada na revista científica O Instituto, de Coimbra, em Março de 1878. Adriano de Paiva tem prioridade sobre Senlecq e reivindica-a muito diplomaticamente perante o chefe de redacção do jornal científico La Nature, de Paris, em 1879. A partir de então é longa e solidária a cadeia de portugueses que ao longo de gerações têm reivindicado a prioridade da invenção da TV para Portugal. Logo em 1883 é Agostinho de Sousa com o trabalho ‘O Professor Adriano de Paiva e a Telescopia’; em 1906, Sousa Pinto em ‘A Visão à Distância e a Transmissão Rápida da Fotografia’; depois, com regularidade, O Comércio do Porto, em 1879, 1915, 1926, 1933 e 1934; mais recentemente, entre outros, Sande Lemos, em Atomo, de Dezembro de 1948; e O Primeiro de Janeiro, de Março de 1956. Até um estrangeiro ilustre, o prof. Walter Bruch, inventor do sistema de TV a cores PAL, quis repercutir entre nós, em entrevista dada ao Diário da Manhã, em Junho de 1967, o consenso internacional acerca da atribuição da prioridade da invenção da TV a um português, professor de Física do Porto. Adriano de Paiva ensinava nas suas aulas, entre as aplicações da electricidade, como se conseguia a ‘Telescopia Eléctrica’, a TV, já em 1885. Porque não ouvimos nós uma referência a este notável físico nas nossas aulas de física dos ensinos secundário e superior? É como se, colectivamente, nos custasse a acreditar que um de nós pudesse ter a capacidade criadora que está na origem dos grandes inventos que podem transformar o Mundo.” Voltar a fechar

Interessantes, ainda, como consulta, dois artigos de jornal sobre A. de Paiva: um, publicado no Diário de Notícias, por Pina Cabral (3.2.1979); o outro, no Expresso, por Lopes da Silva (5.5.1979).

2 Manuel Varella, Portugal nas Origens Históricas da Televisão - Ed. Casa do Pessoal da RTP, 1981.

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