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  • Década de 70
  • "Gabriela" e "Cornélia" - prendas aos 20 anos
  • pag7

Já a Comissão Administrativa da RTP não tinha Presidente (desde 12 de Janeiro e, desta vez, por razões que nada tiveram a ver com a estafada instabilidade interna ou com as inconstâncias da conjuntura política)19 e de nomes, e alguns sonantes, muito se falava para lhe suceder, quando, a 20 de Fevereiro, morreu Vitorino Nemésio, a figura que a RTP mostrou como era, no uso da palavra espontânea, no poder de comunicar, na maneira de estar ao centro do ecrã, com os livros em fundo, as mãos também falantes à frente e aqueles olhos vivazes por detrás das lentes grossas. Foi uma referência na programação televisiva durante muito tempo. Ao ponto de alguém ter certo dia achado que era demais e o ter deixado maltratado no seu percurso de antena. Se ainda os havia, os ressentimentos apagaram-se com o fim e a RTP trouxe Vitorino Nemésio de volta ao seu primeiro plano. O “Se Bem Me Lembro...” chamou-se nessa noite “Coimbra dos Anos Vinte” e foi uma homenagem complementada com palavras de quem bem o conhecia, o prof. Paulo Quintela.

Ao País voltara, entretanto, a “febre” da telenovela, assim se provando (como se tal fosse preciso) que “Gabriela” abrira na programação um espaço de “carinho” que não admitia controvérsia e era necessário manter para benefício das audiências e, consequentemente, da publicidade. E a verdade é que já não se lhe concedia apenas o horário nobre, pois quando a RTP recomeçou as emissões à hora de almoço (o que sucedeu a 20 de Fevereiro) aí se instalou, e para ficar por 5 meses, “Escrava Isaura”, telenovela que acabava de passar na Globo e que lançou Lucélia Santos na Televisão. Reconhecendo-se, embora, muito mérito a esta telenovela, sobretudo pelo entrecho (tanto assim que veio a passar, de novo, mais tarde, em horário acessível ao grande público), o seu impacto pouco teve a ver com o conseguido por “O Casarão”, já estreado a 2 de Janeiro e que passava na zona horária clássica da telenovela, ou seja a seguir ao Telejornal das 20 h. Era uma telenovela de excelente qualidade, recheada de problemas sentimentais envolvendo 5 gerações de uma família que se estabeleceu no norte de São Paulo, na fase da corrida para as férteis terras do café. A história, gizada por um especialista na matéria, Lauro César Muniz, contava-se em “flash-backs” bem engendrados e teve notáveis interpretações, como as que couberam a Yara Cortes, Paulo Gracindo, Sandra Barsotti e Mario Lago. Mas só actores eram para cima de 50 e, entre eles, os portugueses Laura Soveral e Tony Correia. Calhou sobre o Verão ter chegado ao fim a saga de “O Casarão” (ao cabo de 160 episódios) e, talvez por isso, se fez uma pausa. Mas, com o mapa-tipo de Outubro, logo se voltou ao produto “made in Globo”, dessa vez com um original de Janete Clair com o muito profético título “O Astro” (que era Francisco Cuoco, um actor que por cá se fez conhecido, a partir daí) e que foi a mais longa das telenovelas até então passadas entre nós: só viria a terminar em Julho de 1979. Tal como a sua antecessora, também “O Astro” terá sofrido alguns “desvios” no argumento, por imposição da por demais atenta censura brasileira de então, mas, na verdade, era coisa que pouco se notava, não fora o que iam divulgando os jornais e as revistas, que passaram a dar enorme destaque às telenovelas exibidas pela RTP, não se dispensando (ontem, como hoje) da publicação dos enredos, dia-a-dia.

Vêm pois destes anos ainda da década de 70 as raízes que a telenovela foi fazendo medrar nos terrenos da programação televisiva. Antes mesmo de incentivar a produção nacional da especialidade, ou mesmo depois de se terem criado linhas de fabrico que conheceram – e vão conhecendo – bons e maus dias, a telenovela brasileira nunca mais deixou de fazer companhia aos espectadores portugueses. Há quem a considere um produto indispensável e há quem a descarte. Pode também existir uma zona de morada dos indiferentes mas, a existir, deve ser pouco povoada. Porque, mesmo aqueles que consideram a telenovela como “espectáculo menor”, ou os que afirmam “telenovela, nunca vejo!”, esses constituem uma classe curiosa que, amiúde, se desmascara quando, sem disso sequer se aperceber, nos está a revelar pormenores do enredo ou sabe, demais, os nomes dos protagonistas.

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"Escrava Isaura" - Lucélia Santos

Um artista português como intérprete de "O Casarão" - Tony Correia

Laura Soveral - outra artista portuguesa em "O Casarão"

"O Casarão" - Mário Lago

"O Astro" - Francisco Cuoco


19 Texto integral da Ordem de Serviço nº2, de 19.1.1978: “Para conhecimento de todos os trabalhadores, a seguir se transcreve o comunicado do gabinete do Sr. Primeiro-Ministro relativo ao pedido de demissão apresentado pelo sr. Edmundo Pedro das funções de Presidente da Comissão Administrativa da RTP: ‘Em carta dirigida ao Ver maisPrimeiro-Ministro, o Presidente da Comissão Administrativa da RTP, Edmundo Pedro, pediu a demissão daquele cargo, invocando como razão o desejo de que as especulações tecidas á volta do seu caso não atinjam o prestígio dos órgãos ou instituições a que se encontra ligado. Embora não tenha sido proferida ainda qualquer decisão judicial que permita concluir da culpabilidade ou inocência do Presidente da Comissão Administrativa da RTP, o Primeiro-Ministro, atendendo às circunstâncias e à necessidade de garantir o normal funcionamento daquele órgão de comunicação social, aceitou o pedido de demissão.” Voltar a fechar

Ainda a propósito da detenção de Edmundo Pedro, por posse de armas de guerra, Proença de Carvalho que, poucos anos mais tarde, também ele seria Presidente da RTP, escrevia no Expresso, assinando como advogado e ex-director do Jornal Novo: “O holocausto de Edmundo Pedro não pode deixar de constituir um Ver maisespinho doloroso nas consciências de quantos estiveram unidos na luta contra o totalitarismo gonçalvista; e, ou me engano, ou Edmundo Pedro estaria em condições de fazer rebentar o escândalo de consequências imprevisíveis, se quisesse defender-se revelando todas as implicações deste caso. Tudo isto porque os seus companheiros de luta foram incapazes de se assumir na vitória e antes se envergonharam de uma luta que, em muitos aspectos, se identificou com a luta antifascista.” (“O caso Edmundo Pedro – o senhor que se segue?...” – 28.1.1978). Voltar a fechar

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