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  • Década de 70
  • RTP-2: um novo Canal
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Ainda hoje há na RTP – felizmente! – quem se lembre, com alguma emoção, da experiência que se tentou, resultou e acabou por morte provocada: a autonomia do 2º Canal que, a partir de 16 de Outubro de 1978 foi um facto – o facto do ano, para que se lhe conceda a dimensão que efectivamente teve – que não escapou nem ao espectador mais distraído. No jogo, aparentemente arriscado de competir, com abertura e lealdade, com o 1º Canal, as cartas eram dadas por Fernando Lopes,1 velho “tarimbeiro” da RTP entretanto regressado à casa, que conhecia demasiado bem para saber que sim, que era possível aplicar nela as muitas ideias que tinha. Escreveu, na hora do regresso, já arregaçadas as mangas para o trabalho que não faltava: “Pelo nosso lado, tudo fizemos e tudo faremos para que o 2º Programa possa constituir, realmente, uma verdadeira alternativa para os espectadores portugueses – mesmo quando, como por agora, ele só cobre uma área restrita do País – na certeza de que as críticas e sugestões são um estímulo vital para que o 2º Programa venha a ser, no futuro, e cada vez mais, outra Televisão.2 ”Também Vasco Graça Moura, entretanto chamado a dirigir a programação do 1º Programa,3 assumia posições muito claras. Como esta: “... sem esquecer a sua função compensatória, em cada noite, das frustrações do homem comum em cada dia, sem se alhear da sua importantíssima dimensão recreativa, a Televisão poderá, em razoável compromisso de soluções encontradas, organizar coerentemente toda uma série de instrumentos críticos, idóneos e plurais, que permitam ao povo português enfrentar a sua realidade histórica.4 ”Sinopses de cartas de intenções que tinham, também, muito que ver com a grande abertura a trabalho personalizado e descomprometido com as tradicionais áreas de “mando”, dentro da RTP. O Presidente chamava-se, então, João Soares Louro e era funcionário de carreira, iniciada mesmo pelas origens e praticamente desde o arranque da nossa TV.5 Isto sucedia pela primeira vez e não voltou a suceder, até hoje. A oportunidade única foi bem aproveitada por quem conhecia os cantos todos à casa e tratava por tu os moradores-companheiros mais capazes.

João Soares Louro tomou posse como 14º Presidente da RTP a 28 de Março de 1978. E, com ele vem, também, um novo vogal para a Comissão Administrativa, Figueiredo dos Santos, mantendo-se em funções os dois anteriores: Leopoldo Águas e Cardoso de Meneses.6 Na altura em que lhe foram confiados os destinos da RTP (por João Gomes, que já fora responsável pela Informação da empresa, embora apenas por um mês, e era, agora, o Secretário de Estado da Comunicação Social), Soares Louro poupou nas palavras mas deixou bem expresso o desejo que o animava de, rápido, passar aos actos. Isto é, deu a entender que só lhe interessava ser um presidente operacional, como aliás viria a ser, sem surpresa para quantos o conheciam melhor. Disse a certa altura: “Os portugueses estão saturados de discursos com rosários de propósitos. É tempo de se passar com mais eficácia e celeridade das palavras às acções. Será pelo trabalho que agora vamos encetar, e só por ele, que se há-de apreciar imediatamente a nossa acção à frente da RTP.” E foi assim que, 15 dias depois, já não existia a Comissão de Reestruturação, que entrara em fase cataléptica; e solicitara-se ao Ministério das Finanças uma auditoria urgente, com o objectivo de clarificar situações relacionadas com a gestão financeira da RTP.7 Novos ares sopravam, também, sobre o que, já então, se começara a chamar “TV das Regiões”, verificando-se importantes alterações nas cúpulas: ida do ten. Costa Parente para a RTP-Açores, o que deu continuidade à gestão por militares; de Manuel Correia para a RTP-Madeira, depois de um período de interinidade de um quadro local, Carlos Alberto Fernandes, que pusera fim à gestão militar; e de Torcato David para a RTP-Porto. Nos dois últimos casos, tratou-se da ascenção de “pioneiros” da empresa, curiosamente da área técnica, embora Manuel Correia estivesse há alguns anos afastado do serviço. Costa Parente levou consigo, para chefiar a Redacção, o açoriano José Eduardo Moniz; um outro jornalista, José Mensurado, esteve algum tempo na Madeira, com a mesma missão, mas insanáveis desinteligências com o Governo local forçaram o seu regresso ao Continente.

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Um funcionário da RTP torna-se seu Presidente - João Soares Louro


1 Fernando Lopes regressava à RTP 14 anos depois de dela ter saído. Elemento da fase “pioneira”, fez uma pausa na Televisão para ir para Londres, com uma bolsa do Fundo de Cinema, diplomar-se pela London School of Film Tecnique. Em 1960 está de volta e passa a integrar a Ver maisequipa de Manuel Figueira, que lhe confia a realização do Telejornal. O seu primeiro filme, “As Pedras e o Tempo” é premiado em Tours (1961). Dirige, depois (1962), “As Palavras e os Fios”, com que obteve o prémio Paz dos Reis. A seguir à realização da sua primeira longa-metragem, “Belarmino” (1964), deixa a RTP para se dedicar, por inteiro, ao cinema e à publicidade. No 25 de Abril dirigia a revista “Cinéfilo”, que acabou 3 meses mais tarde. Embora convidado para reingressar na RTP, rejeita o convite, que só aceitará anos depois, para se dedicar de alma e coração ao projecto do 2º canal, cuja programação autónoma Fernando Lopes apresentava como “nem o caixote do lixo, nem a montra do luxo”. Voltar a fechar

2 Folheto de apresentação da nova programação, edição RTP – 1978.

3 José Niza deixou, a seu pedido, o cargo de Director de Programas, o que foi entendido como um acto normal, fase à assunção de responsabilidades da nova Comissão Administrativa. Esta não demorou a concretizar as primeiras nomeações de topo e que foram, precisamente, as que interessavam à programação. Desde Ver maislogo, António Botelho foi designado para exercer, em regime de interinidade, o cargo de director de Programas. Augusto Abelaira cessara, antes, as funções de adjunto e, entretanto, o arqº Herlânder Peyroteo assumia um cargo recém-criado: o de adjunto da Direcção de Programas para o sector da realização. A Ordem de Serviço nº 1, de 10.1.1978, definia-lhe as seguintes atribuições genéricas: “Coadjuvar o Director de Programas na gestão do sector da realização em intima colaboração com os profissionais da realização e com os demais sectores da produção e fabricação de programas.” Na altura se falou, também, e com fundo de verdade, no interesse manifestado por Soares Louro em ver regressar à RTP o seu antigo companheiro de trabalho e amigo Condorcet Costa, a quem destinaria funções de coordenação do importante sector operacional. Embora muito negociado, tal regresso não se concretizou, continuando Condorcet no México, nos quadros superiores da OTI. Voltar a fechar

4 Folheto de apresentação da nova programação, edição RTP – 1978.

5 Um jornalista do Expresso (11.3.1978), que interrogava Soares Louro sobre a eventualidade do seu “regresso” à RTP, como Presidente da Comissão Administrativa, em substituição de Edmundo Pedro, recebeu a seguinte resposta: “É impossível regressar donde não se saiu e a verdade é que durante os últimos 2 anos não Ver maisperdi jamais a qualidade de trabalhador da RTP.” Nesses 2 anos, Soares Louro empenhara-se a fundo na política, ao serviço do seu partido, o PS, tendo sido, recorda-se, deputado e Subsecretário de Estado da Comunicação Social. Voltar a fechar

Entrevistado por Maria João Seixas (Pública, revista dominical do jornal Público, 1.7.2001), Louro conta que estava nomeado para uma empresa em que já trabalhara, a Mundet, quando recebeu uma chamada do palácio de Belém. “Era o Presidente da República, general Ramalho Eanes, que me disse: ‘– Estou aqui com o Ver maisPrimeiro-Ministro (Mário Soares), Há uma situação complicada e você tem de ir para a RTP.’ Expliquei que tinha acabado de assumir um compromisso com o Ministro da Indústria (Nobre da Costa), que Mário Soares porventura desconhecia e que me ia apresentar no dia seguinte no Seixal, ao que Eanes respondeu: ‘– Dentro de meia hora é aqui, em Belém, que você se apresenta!’ Nobre da Costa foi também convocado e passados dois dias eu tomava posse como presidente da RTP.” É a altura de enfrentar os desafios mais motivadores que se perfilam – e não como imposições de futuro, mas do imediato. Recorda: “Encontrei uma empresa que eu conhecia, que tinha começado exactamente há 21 anos e que tinha batido praticamente no fundo. O equipamento estava obsoleto, tanto o de estúdio como, principalmente, o de difusão de emissão. A empresa nunca mais tinha sido reestruturada. Tinha ainda o mesmo modelo de 1957, 58, por aí… Pensei que era necessário fazer uma empresa mais ajustada ao novos tempos e arranjar-lhe financiamentos, criar um modelo económico para o seu desenvolvimento. Foi como refundar a RTP, 20 anos depois. (…) Fiz uma aposta na gente nova, em novos métodos de trabalho, definindo melhor as áreas e as vocações. Apostei muito na formação.” (declarações ao programa RTP - Quatro Décadas, produzido pela “D&D” para a RTP). Voltar a fechar

6 Quando do pedido de parecer solicitado pelo Secretário de Estado da Comunicação Social ao Conselho de Informação para a Televisão, sobre a constituição da nova Comissão Administrativa da RTP, os representantes do PS e do CDS votaram a favor; o PSD abandonou a sala em sinal de protesto contra Ver maiso processo de decisão; e o PCP votou contra. A UDP não esteve presente. Voltar a fechar

7 Mas não só. Segundo o Expresso (8.4.1978), “esta iniciativa da nova CA da RTP visa sensibilizar o Ministério das Finanças para a necessidade de uma reestruturação completa daquela empresa pública no domínio económico-financeiro, de proceder a um expressivo aumento do seu capital, reestruturar o serviço de cobrança de taxas, Ver maissaneamento do passivo da empresa e lançamento de uma vultuosa política de investimentos com vista ao relançamento da RTP na área da produção e da emissão. A nova CA da RTP entende que “só a partir da análise cuidada e criteriosa à gestão financeira prosseguida nos últimos anos, realizada por departamento governamental e com consequente divulgação pública das suas conclusões, lhe será possível enveredar decididamente pelas grandes realizações que se impõem mas que requerem planificação orçamental numa base de confiança legitimamente reconhecida.” Voltar a fechar

Soares Louro, o novo Presidente, chegou a dizer que tarefa urgente era mesmo “refundar a RTP, 20 anos depois”, sendo que, para tanto, era necessário apostar em, pelo menos, 3 frentes que, nessa época em que as siglas se tinham implantado em tudo o que era comunicação, nada admirou que Ver maisficassem conhecidas por “3 erres” – reestruturar, reequipar, reciclar. Voltar a fechar

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