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  • Década de 70
  • "Gabriela" e "Cornélia" - prendas aos 20 anos
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Aparentemente foi uma coincidência – mas uma coincidência muito feliz. Aos seus 20 anos, para os comemorar e ficar alguns meses em festejos, a RTP apresentou “Gabriela” (início da era da telenovela1 na Televisão portuguesa, sendo então imprevisível a popularidade que estava reservada ao género, que se foi cimentando ao longo dos anos e continua, ainda hoje) e “A Visita da Cornélia” (o primeiro concurso que, na nossa TV, teve evidentes características de “show” e, ainda por cima, a virtude de ser um produto cem por cento nacional e ter confirmado e, principalmente, revelado, personalidades com rara aptidão para o espectáculo em formato ecrã).

“Gabriela” (também “Cravo e Canela - crónica de uma cidade do interior”, se quisermos conceder-lhe a integralidade do título do autor, Jorge Amado) mereceu honras de apresentação à Imprensa e a muitos outros convidados (talvez 300) no salão nobre do Hotel Ritz (Lisboa) onde, a um canto, se improvisou um estúdio, para actuarem, também para os espectadores da RTP, Vinicius de Morais, Toquinho, Maria Creusa e Raúl Solnado. Quer dizer, foi rija a festa que marcou a introdução da telenovela na vida e nos hábitos do consumidor português de Televisão. Hoje, é possível dizer-se que assim foi. Então, o que se anunciava era que “Gabriela” iria ser, de Maio a Novembro, 5 dias por semana, uma companheira para o auditório nacional, no seu horário mais nobre. Esperava-se muito, é certo. Mas não se esperava tanto. Não se esperava que durante 6 meses, pelo menos 4 milhões de espectadores se tornassem fiéis a um produto novo, que chegava e vencia. O semanário Tele Semana2 escrevia: “O público português vai ter ´Gabriela` e vai saber o que com ela chega. Grande sucesso de popularidade no Brasil, é natural que ´Gabriela`, folhetim da TV, não alcance entre nós igual êxito: o povo português não vai ver-se retratado ali, aquele não é o seu mundo, o seu tempo. Mas muitos daqueles dramas serão os seus, ou semelhantes, e isso vai ser o bastante para assegurar ao folhetim uma audiência ampla e apaixonada. Porque, essa é, no fim de contas, a mais importante função da arte: mostrar às pessoas que elas são mais parecidas entre si, mais profundamente solidárias umas com as outras, do que às vezes se dão conta.”

Mas o que não há dúvida é que o público português se entregou à telenovela, viveu-a e fez dela uma companhia. Embora longe de se identificar com a maior parte dos conflitos em que aquela terra de Ilhéus era demasiado pródiga, o nosso espectador não se furtou à crescente atracção pelas situações que, dia após dia, se iam entrelaçando e nas quais se movimentavam personagens que, essas sim, eram distinguidas com carinho, indiferença ou desamor, consoante a intervenção que tinham no enredo e o seu comportamento era julgado pelo implacável juiz que é o público. Deu-se este conta, através de “Gabriela”, que a telenovela, a primeira que via, tem os seus próprios alinhavos – uma arte de escrita, um conjunto de imagens e de sons (a música, essa é fundamental) sustentador do desenrolar da acção, um grupo de intérpretes que não apenas a animam mas também têm sobre si a responsabilidade de comunicar para o exterior os sentimentos que conferem humanidade a qualquer história. “Gabriela” tinha um notável conjunto de intérpretes. Não era só a história, era também eles. E se todos sabiam que era Sônia Braga quem dava corpo à protagonista, já menos sabiam que era Armando Bogus que fazia o turco Nacib e Paulo Gracindo o coronel Ramiro Bastos, e poucos os que identificavam os actores que faziam de Tonico Bastos, dr. Mundinho, Jerusa, prof. Josué, Malvina. Mas estes eram os nomes que tinham importância e se tornaram, rapidamente, familiares aos espectadores. Quem eles eram e o que faziam na telenovela era o que mais importava e foi assim que passaram a fiéis companheiros do serão televisivo.

As figuras de “Gabriela”, comandadas por ela mesma e gravitando na sua órbita interesseira, tornaram-se, com efeito, extremamente populares e os azares, quanto as fortunas, de cada uma delas, motivo de conversa, interesse e preocupação de uma camada de auditório que a narrativa teve o mérito de “enlear”, por si e pelos protagonismos.3 Não se confirma (mas também não se desmente) que certo Conselho de Ministros tenha sido interrompido para que os participantes pudessem seguir o episódio final da telenovela; e que o secretário-geral de um partido político tradicionalmente austero tenha chegado aos estúdios da RTP, para participar no programa “Mosaico”, com ligeiro atraso, não por ter estado reunido com trabalhadores, mas porque não quis perder o final de um episódio... Que assim tivesse sido, não espanta, pois a verdade é que o País quase parava à hora da telenovela brasileira e esta teve o peso suficiente para modificar hábitos adquiridos por muita gente, para modificar os seus compromissos horários e compatibilizá-los com os dos visionamentos. Salas de cinema houve que tentaram retardar o início das sessões (na província, algumas, fizeram-no mesmo) enquanto que empresários do ramo, também muito preocupados com o desafio que a emergente telenovela lhes lançava, tomaram a decisão de instalar receptores de TV nos átrios das suas casas de espectáculo.

Com o correr dos tempos, sobretudo com a habituação, o País “recompôs-se”. A telenovela entrou na rotina (com os picos de exagero, pela quantidade, que bem se conhecem) e continuando, embora, a ser um elemento preponderante no composto da programação televisiva que por cá se serve, já não tem sobre o auditório o impacto que teve esse verdadeiro caso sociológico que foi “Gabriela”. E quando a telenovela que “tomou conta” deste país terminava, um crítico de Televisão4 dedicava-lhe algumas palavras com o seu quê de profético: “Já os serões parecerão vazios a muita gente. Já alguns irão ao 2º Programa buscar, na repetição dos episódios vistos há meses, refrigério para a saudade. Entretanto, ter-se-á cumprido integralmente o primeiro passo do que bem pode vir a revelar-se uma fase nova da existência da TV em Portugal: a era das grandes telenovelas. Para lá das pequeninas ansiedades provocadas pelas peripécias de ´Gabriela`, da funda admiração causada pela surpreendente qualidade do folhetim, o facto de marcar o advento dessa nova era bem pode ser o que mais importou na vinda de ´Gabriela` aos televisores portugueses.”

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"Gabriela" - Sônia Braga

"Gabriela" - uma espetacular encenação televisiva

Coronel Ramiro Bastos (actor Paulo Gracindo) e Tonico Bastos (Fúlvio Stefanini), figuras centrais no elenco da "Gabriela"


1 Fenómeno dos mais curiosos no quadro actual do entretenimento pela TV, produto típico da cultura de massas, a telenovela tem raízes no romance burguês do século XVIII, nos folhetins do século XIX e nas historietas melodramáticas em fascículos de distribuição porta-a-porta que, correntes ainda há 40 anos, acabaram perdidas Ver maisnoutra onda de comunicação igualmente caracterizada por fictícias sensações de felicidade: a fotonovela. Aproveitada pelos argumentistas cinematográficos, mas, mais ainda, pelos radionovelistas dos anos 50, essa génese é, com efeito, a da telenovela que, contrariamente ao que muita gente pensa, não nasceu no Brasil mas sim em Cuba, passando depois ao México, Venezuela e Argentina. Do ponto de vista do consumo, a telenovela torna-se, na América Latina, um produto cultural de grande importância. Por volta de 1963/64 as emissoras paulistas e cariocas chamam para o Brasil o fenómeno ibero-americano, na tentativa de superar os baixos índices de audiência. O sucesso é progressivo, explicando-o os sociólogos pela elevada percentagem de analfabetos entre a população, pela tradicional ausência de hábitos de leitura, pelo quase total desinteresse pelo teatro e pelo cinema, pela facilidade com que o enredo da telenovela, seus personagens, seus cenários, se iam integrando de tal maneira na vida dos espectadores que tudo se assumia como uma imediatista e íntima realidade. Nos anos 70, quando já vai longe a primeira que empolgou a América Latina, "O Direito de Nascer", a TV Globo torna-se a maior produtora mundial de telenovelas, embora hoje, também, a Record, a Bandeirantes e algumas produtoras independentes não dispensem o produto. Aproveitando o novo potencial tecnológico (as gravações em videotape, por exemplo, revolucionaram os esquemas de produção, conferindo-lhes possibilidades antes desconhecidas) e investindo somas consideráveis em actores, escritores, directores e em operações de "marketing", as produtoras levam ainda a telenovela para fora dos estúdios, recriando-a em cenários naturais, algumas vezes longe do Brasil. Moderniza os temas, confere-lhes sofisticação e qualidade, dá-lhes "sabor" brasileiro. Dias Gomes, Janete Clair (que tem uma curiosa definição de telenovela: "um novelo que se vai desenrolando aos poucos"), Lauro César Muniz, Herval Rossano, Gilberto Braga, Avancini, etc., afirmam-se como especialistas da forma-padrão da telenovela: amor-sofrimento-final feliz. A telenovela brasileira – se possível a escrita especialmente, explorando os problemas actuais, o que permite ao espectador identificar-se com a acção no tempo – tornou-se uma instituição nacional, como o futebol e o carnaval. Voltar a fechar

2 Edição de 3.6.1977. O mesmo semanário, mas em edição muito anterior (7.11.1975), noticiava: "A RTP adquiriu os direitos de exibição do folhetim ´Gabriela, Cravo e Canela`, baseado na obra homónima de Jorge Amado. O êxito junto do espectador brasileiro foi espectacular. Sê-lo-á em Portugal, junto do nosso público?... Há Ver maisquem diga que sim. Pois trata-se de uma obra de ´grande fôlego` de um escritor brasileiro dos mais ´vendidos` entre nós e, além do mais, para a realização de ´Gabriela` não faltaram os meios técnicos e humanos de primeira qualidade. Calcula-se que a sua exibição comece a ser feita no início do próximo ano.” Falhou a previsão, “Gabriela” (que no Brasil foi telenovela das 22 horas, e esteve "no ar" de 14 de Abril a 24 de Outubro de 1975) estreou-se na RTP-1 a 16 de Maio de 1977. Teve 130 episódios e o último foi exibido a 16 de Novembro. Carlos Cruz, enquanto Director de Programas, foi o responsável pelo fecho do negócio com a TV Globo, que produzira “Gabriela” para assinalar os seus 10 anos de existência e 5 de liderança nacional. O Diário de Notícias - DNA, de 18.5.2002, escreveu, a propósito: "Quando se fala de telenovelas costuma dizer-se que o grande culpado da entrada do género na programação da Televisão foi Carlos Cruz. E foi, porque a ele se devem as renhidas negociações entre a RTP e a Globo para a compra de 'Gabriela'. Conta Carlos Cruz que a Globo exigia um preço elevadíssimo e foram precisas muitas reuniões e ainda maiores regateios para que a estação brasileira cedesse os direitos. Nessa altura, o delegado da Globo que negociou com a RTP acabou por chamar ‘cigano’ a Carlos Cruz, tanto se negociou para que cada episódio acabasse por custar 300 dólares em vez dos 500 que a rede brasileira pedia. Passou-se isto em 1976, quando Carlos Cruz foi, por breve tempo, Director de Programas, cargo de que pediria a demissão em Janeiro de 1977.”
A telenovela “Gabriela” voltou por mais 3 vezes ao pequeno ecrã da RTP: entre Agosto de 1977 e Fevereiro de 1978; e durante o ano de 1983, desta feita a cores. Voltar a fechar

3 Sintomático o facto do romance de Jorge Amado (editado em Portugal há alguns anos) ter figurado durante um mês, contado a partir do início da telenovela, entre os 5 livros mais vendidos.
No Brasil, e segundo o próprio autor, logo que “Gabriela” começou a ser apresentada cresceu a venda Ver maisdo livro. Chegou até aos 3 milhões de exemplares, quando, antes se tinham vendido (apenas!) 600 mil. Voltar a fechar

4 Correia da Fonseca, Tele Semana, 18.11.1977.

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