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  • Década de 60
  • RTP aos 10 Anos
  • pag41

A uma tal demonstração de potencial técnico (sem que se esqueça o humano) parece razoável associar as tarefas inerentes ao alargamento da cobertura do Continente, que iam prosseguindo. Em 1966 entraram em funcionamento o importante emissor do Muro (distrito de Viana do Castelo) e os retransmissores do Minhéu e da Gardunha, enquanto outros dois, Bornes e Marofa, tiveram aumentos de potência. Em condições satisfatórias, a RTP passou assim a alcançar 89,5% da população e 90,3% da superfície. Quer isto dizer que houve muito mais gente a ver as 2 930 h. 39 m. emitidas pela RTP nesse ano e que, não considerando a Telescola, a Informação (incluindo actualidades e desporto) continuou a cobrar a parte mais importante, 18,22%, vindo, logo depois, a programação filmada, com 10,53%.53 Aqui tivemos as séries de novo em alta: “Olho Vivo”, “Mister Solo”, “Fury”, “Flipper”, “Os Defensores”, “Daktari”, “O Barão” e “Um Homem Chamado Shenandoah”. Mas o documentário também é merecedor de uma palavra e quem primeiro a pretexta é o realizador Adriano Nazareth, já que um filme seu recebeu o “1º Prémio Nacional do Turismo Espanhol-1966”, atribuído a colaboradores ou redactores estrangeiros de Televisão. “Caminhos Portugueses de Santiago”, o título desse documentário, do qual Nazareth também foi o operador de imagem, constituiu mais um excelente trabalho do realizador, do qual se devem citar outros, como “O Barredo”, “Um Rio foi Vencido”, “O Mar também dá Pão”, “Onde os Bois Lavram o Mar” e “O Sargaceiro de Apúlia”.54 Depois, há que guardar a melhor recordação de trabalhos de Michel Giacometti, um francês que chegou à descoberta do Portugal mais desconhecido e foi fixando, pelo som e pela imagem, material de incalculável valor sobre o nosso folclore (com recolha e estudo de canções), sobre o artesanato popular e quem mais genuinamente o praticava, sobre usos em desuso e costumes em via de extinção. Estudioso, vagabundo por pendor, cientista das raízes por vocação, Giacometti, depois de “O Alar das Redes”, sobre a faina piscatória, voltou, então, com “Rio de Onor” (imagens de Artur Moura), uma aldeia perdida em serranias transmontanas. E, já agora, deixe-se o registo de que a RTP esteve pela primeira vez presente, neste ano de 66, no Festival Internacional de Televisão de Monte Carlo. Apresentou dois documentários: “Óbidos e a Semana Santa”, de Baptista Rosa (realização) e Augusto Cabrita (fotografia); e “O Destino é o Mar”, de J. Elyseu (realização) e Sebastião Pinheiro (fotografia). Voltaram sem prémios mas com algumas boas críticas.

Quanto ao tão apreciado teatro-TV, os 2,92% representam uma perda muito ligeira em relação ao ano anterior, 2,98%, mas a verdade é que 2 grandes espectáculos dominaram o ano. O primeiro foi “Pedro, o Cru”, de António Patrício, adaptado para TV (em 1961) por Armando Vieira Pinto. Belo o efeito plástico dos cenários de António Casimiro e quanto à realização de Herlânder Peyroteo o que se pode dizer é que ela foi notável, a todos os títulos. Obrigado a movimentar câmaras e a aplicar a sua muito bem estudada planificação (técnica e humana) às dimensões do estúdio que tinha e pelo qual passaram – imaginem! – cerca de centena e meia de intérpretes e figurantes, Peyroteo conseguiu um dos seus melhores trabalhos de Televisão. Como D. Pedro, o Cru, Rei de Portugal, esteve o actor Sinde Filipe que, ainda hoje, considera que assentou então um marco na sua carreira.55 O outro grande espectáculo foi “As Árvores Morrem de Pé”, de Alejandro Casona, em transmissão directa do Teatro Avenida (a casa emprestada à companhia do Teatro Nacional de D. Maria II), com uma excepcional interpretação de Palmira Bastos, a última em Televisão, todavia ainda hoje e sempre possível de reviver graças ao videotape, particularmente cuidado como o foi, aliás, todo o tratamento televisivo a cargo de Fernando Frazão e que guardou a emoção daquele momento final, em que a actriz, porte altivo, bengala batendo no chão em firme gesto de singular densidade dramática, clama: “... e não quero que me vejam triste nem caída. Morta por dentro, mas de pé. De pé como as árvores!” Ao mesmo Teatro Avenida (que também o fogo destruiria totalmente, ao princípio da noite de 13 de Dezembro de 1967) voltou o mesmo realizador para transmitir “Os Velhos”, de D. João da Câmara, com Amélia Rey-Colaço. “Mar”, de Miguel Torga (que foi das primeiras peças que se viram na RTP, em 1957) regressou, então, sob direcção de TV de Oliveira Costa e teatral de Carlos Avilez, com o elenco do Teatro Experimental de Cascais e uma realização plástica de Almada Negreiros. Tudo isto a pedir lembrança de uma outra peça de Torga, “Terra Firme”, que a RTP apresentou em 1963 e que, de certa maneira, forma, com “Mar”, um díptico dramático vigoroso, de fundas raízes portuguesas. “Estrela Circulação”, de Rui Correia Leite, manteve a tradição do folhetim; e em episódios compactados para “Pequeno Teatro”, Olavo d´Eça Leal propôs o tema “Os Sete Pecados Mortais”, sendo que deles se ocupou com mais 3 colegas do ofício: Costa Ferreira, Rui Correia Leite e Romeu Correia. Cinco realizadores trataram a “matéria”: Félix Ferreira, Fernando Frazão, Herlânder Peyroteo, Luís Andrade e Jorge Listopad.

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"Olho Vivo"

"Fury"

"Pedro, o Crú" - Sinde Filipe

"As Árvores Morrem de Pé" - Palmira Bastos em imagem "tratada" pelo realizador (sobreposição à assistência)


53 Através de boletins adequados ao efeito e inseridos na sua revista semanal, a TV, promoveu a RTP um inquérito, que foi dos primeiros que se concretizaram e que proporcionou algumas conclusões interessantes, como estas: auditório potencialmente considerado – 5,5 milhões de espectadores, sendo que, deste, 62% (ou seja, 3,7 Ver maismilhões) já viram alguma vez Televisão; estratificação do auditório – 60% masculino, 40% feminino; por profissões, quem mais via – 25,5% empregados de escritório, 21,3% estudantes, 17,9% domésticas; quem menos via – 0,8% agricultores e pescadores, 0,4% desportistas e profissionais do espectáculo. Voltar a fechar

54 Adriano Nazareth – 30 Anos de Televisão (ed. Queiroz Neves & Cª Lda., Vila Nova de Gaia, Fevereiro de 1988) é um livro indispensável para quem queira conhecer o percurso deste realizador da RTP, contado por ele próprio.

Adriano Nazareth faleceu em 30.12.1998.

55 Episódio divertido é o que o jornalista Cordeiro Neves lembra no seu texto “Deslizes da RTP”, publicado no semanário Tal & Qual, 13.12.1986: “Gravava-se nos estúdios do Lumiar a peça teatral ‘Pedro, o Cru’. O actor que desempenhava o papel de bispo, sempre que podia, raspava-se para junto dos Ver maiscarpinteiros, numa de ‘matar a sede’. E era meio-mundo a ver do homem, que lá voltava. Ao terceiro dia de gravação, entrou de serviço, no segundo turno, um novo regente de estúdio, que ainda não conhecia bem o dito bispo. Correu o Lumiar à sua procura, até que entrou na sala de caracterização. Sem dúvida, lá estava o actor-bispo sentado. E atirou-lhe: ‘Não tens vergonha nenhuma. Estamos todos à tua espera e tu andas para aí nos copos, a meteres-te com as funcionárias e agora até vens para aqui descansado a pintar a cara’, deu-lhe duas palmadas e acrescentou: ‘Vamos já para o estúdio que isto não é nenhum campo de férias’. E de nada valeram os gestos e sinais da caracterizadora, a tentar desfazer o fulminante equívoco: é que o ‘artista’ era o Arcebispo de Mitilene, que ia fazer uma alocução sobre o Ano dos Missionários. Sua Eminência comentaria depois para um dos seus acompanhantes: ‘Estes senhores da Televisão são muito estranhos’.” Voltar a fechar

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