voltar à homepage do site
separadorseparadorseparadorseparadorseparador
 

Início  |  Fimseparador< anterior - Pag.2 / 22 - próxima >separadorir para a pag. 


  • Década de 60
  • No Reino do ''Directo''
  • pag2

Fazer TV, todos os dias, no Lumiar, era uma entrega. Generosa, com dedicação e transpiração, meio por meio. Como era natural, os segredos profissionais eram cada vez menos, mas havia um, independente desses, que pairava acima de tudo e que Maria Helena Varela Santos, definiu, assim, certa vez: “Um segredo muito simples, mas o factor básico para os ‘milagres’ que se davam dia-a-dia nos estúdios do Lumiar – um espírito de camaradagem, de carolice, de cooperação, uma devoção apaixonada e uma determinação firme posta em tudo quanto se fazia. Não havia ‘cameramen’, locutores, caracterizadores, realizadores, etc. Havia um todo. Éramos um bloco. Cada um de nós dava-se inteiramente ao seu trabalho e ao trabalho dos outros, sem interferir mas procurando sempre ajudar, tentando evitar erros seus ou dos outros, e quando os havia (porque os havia e não eram poucos!) raras vezes se notavam porque havia sempre alguém a ‘tapar o buraco’ (...). Vivíamos uma camaradagem sã, agradável e desportiva. Nenhum pretendia ser ‘o melhor’ embora tentasse ser melhor em cada emissão, isto é, aprendendo e progredindo.”3

Esta Maria Helena é figura estimada, indissociável dos anos de rodagem da nossa Televisão. Menina que, certa noite, apareceu no ecrã de lágrima ao canto do olho, porque acabara de ver morrer a Maria (do “Frei Luiz de Sousa”), no mesmo rectangulozinho electrónico onde ela agora estava; que, noutra noite, ao descrever as características técnicas de um aparelho de TV, muito se atrapalhou porque uma das tais moscas lhe poisou no nariz e por nada se queria ir embora; que viveu, lado a lado com as câmaras, o seu romance de amor com José Manuel Fialho Gouveia (chamaram-lhe o primeiro tele-romance da nossa Televisão e foi-o, com efeito e muito fomentado e acarinhado pelo público e até pelos próprios colegas), até um casamento, desfeito não muitos anos depois, – tudo isto sob os focos, por vezes intempestivos e coscuvilheiros da imprensa “rosa” (e de outras cores), da altura.

A RTP era, então, uma família. Tem-se dito e também já se escreveu. Em certa medida, o texto de Maria Helena Varela Santos, atrás citado, desagua nessa ideia e é curioso ver-se como outros factos, aparentemente menores, concorrem para lhe dar sentido. Assim, rara era a noite em que as senhoras não se reuniam numa das salas do pavilhão da produção, porta aberta para a “alameda dos barbas” – uma homenagem, simpática (e óbvia), dos rapazes da Informação aos seus vizinhos e amigos Miguel de Araújo e Preto Pacheco. Uma via estreita para peões mas que, algumas vezes, era varrida pelos desaforos ciclistas de um jovem, muito jovem (hoje, diplomata de carreira), filho do Manuel Tânger e da Maria Germana. Esta era uma das senhoras que fazia o grupo, com as mulheres de Domingos de Mascarenhas, Manuel Figueira, João Pais, José Atalaya, Renato Santos e Gonzaga Ferreira (a Maria de Lurdes, que era locutora e, portanto, falhava nos piquetes) e, ainda, a então solteira Maria de Lurdes Modesto... Mesmo admitindo esquecimentos, quase certos, seriam estas as de presença mais constante no apoio moral aos maridos ocupados em serões de trabalho de fim imprevisível... mas ali ao lado, como convinha. As que viam, viam a emissão até ao hino. Comentava-se pouco e criticava-se mais, falava-se da moda, dos cozinhados e, provavelmente, das criadas. Coisas de família. “A fase da inocência”, no dizer, feliz, de Fialho de Oliveira.4

Mas não se pense que esse espírito de tertúlia era um exclusivo feminino, nesse final da década de 50, na RTP. Que não era, pois os que seroavam também faziam os seus momentos de pausa para uma fuga até ao bar ou apenas para um cigarro melhor fumado no “meeting point” que era o pátio, quando as noites não davam razão aos que chamavam “monte dos vendavais” à nossa cidade da Televisão. Numa dessas noites, de estio, certamente, o Baptista Rosa e o João Soares Louro, os dois pelo menos, entretinham-se na conversa e no tal fumo – dois inveterados que eles eram, em qualquer das coisas. Estavam à esquina do bar, quase em frente da janela, escancarada, do gabinete da telefonista. O que, a esta, só facilitou a vida (pensava ela...) pois que, assomando ao peitoril, se lamentou por não saber que responder aos muitos espectadores que protestavam porque o realizador não mostrava a cara da cançonetista naquele momento em programa. Era natural que o fizesse. Nuno Fradique, o realizador, defendia na imagem a jovem Ana Maria, excelente voz e presença, mas cega. O Baptista Rosa, que sabia que assim era, disse à telefonista: “- Olha, quando reclamarem, diz-lhes que a senhora é invisual.” Pois sim, então vamos lá de novo às cavilhas, que estes telefones não param. Mas agora já sei o que responder, cogitou a nossa telefonista. Nem passou muito tempo, um escasso minuto, e ei-la de novo à sacada. “- O sr. Capitão sempre me saiu cá um brincalhão. Eu bem os quis convencer com essa que me disse, mas sabe o que um me acaba de responder, sabe?... Invisual a puta que a pariu!”. Pelo menos aquela telefonista não pediu mais conselhos ao capitão Baptista Rosa.

menu de artigos

Maria Helena Varela Santos no décor da continuidade de emissão e prestes a entrar "no ar"

Maria Helena e José Fialho Gouveia - romance de amor na vida real


3 Revista Nova Gente, Março de 1978.

4 Citado por Maria José Mauperrin, Expresso-Revista, 20.7.1996.

diminuir letra aumentar letra Imprimir Enviar

< anterior | próxima >

Footer