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  • Década de 00
  • Entretanto...muita determinação na conquista de objectivos
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Não foram poucas as controvérsias pré-eleitorais, as trocas de pontos de vista (por vezes com dispensável irritação) e, sobretudo, as tomadas de posição das forças partidárias, caracterizadas por assinaláveis divergências quanto ao destino a dar à RTP, que – e aí as opiniões não se dividiam – estava à beira do colapso. Viu-se o PSD defender que, no caso de vencer as eleições (o que veio a suceder), cindiria a RTP em duas empresas: a RTP 1, que continuaria a prestar serviço público, enquanto a RTP 2 até poderia vir a ser vendida a uma empresa independente, “permitindo assim ao Estado realizar algum dinheiro”. O PS, por seu turno, considerava necessária a existência de dois canais abertos, um generalista e outro dirigido a minorias, mas qualquer deles com existência condicionada a uma reestruturação e redução de custos operacionais que, caso não resultassem no termo de prazo razoável (2 anos), chegou a dizer-se, ditariam o encerramento, puro e simples.

Expressões de preocupação – embora não tão decisórias – chegaram, também, de outras origens. Assim, o Conselho de Opinião da RTP1 considerava que a estação não estava a cumprir o serviço público a que se obrigava e tecia duras críticas à evolução da programação mais recente que, entendia, estava já próximo de ser “uma tentativa de concorrência, no pior sentido, com os operadores privados”. A Direcção Geral de Antena não se ficou: repudiou a crítica e fez ler no Telejornal um comunicado em que concluía que o Conselho expressava uma opinião que “não respeita nem a verdade, nem a ética”. Também a Informação foi contemplada com reparos do Conselho de Opinião, que chegou a classificá-la de “tabloidizada”, o que levou o Conselho de Redacção a manifestar-se, indignado, referindo mesmo, a existência de “uma campanha organizada” e pedindo “exemplos concretos das acusações anunciadas”. O Conselho de Opinião considerou que as reacções da Direcção-Geral e do Conselho de Redacção eram “comentários insólitos, impertinentes e arrogantes”, pelo que se abriu (ou prosseguiu) um conflito entre este órgão e Emídio Rangel, que, em certo momento, chegou mesmo a defender a extinção do Conselho de Opinião. Era mais um confronto – que não deixava de ter alguma gravidade, na medida em que era “quase” interno – num cenário que, na ocasião, propiciava muitos outros.

“Que fazer da RTP?” foi o título escolhido para um debate promovido pelo Observatório da Imprensa, que reuniu alguns estudiosos da área da comunicação e no qual voltaram a estar em confronto as opiniões do PSD (que admitia encerrar um canal e colocá-lo a prazo no mercado através de concurso público) e do PS (que considerava que uma terceira estação privada teria efeitos devastadores para os canais comerciais). Felisbela Lopes, professora universitária, larga experiência na análise do fenómeno televisivo, subscrevia no Diário de Notícias2 a seguinte opinião: “A solução (para a RTP) só pode passar pela integridade, inteligência e bom senso dos seus profissionais e dos actores envolvidos na definição de políticas para o sector. Se houver qualidade, os cidadãos compreenderão para que serve um serviço público de televisão.” Já João Soares Louro, um “histórico” da RTP,3 considerava que o actual momento da estação era o resultado “de palpites e emoções da classe política, normalmente mal preparada ou mesmo desconhecedora da gestão do audiovisual. A gestão da RTP tem sido um instrumento de miopia política, porque o Estado não soube criar condições, dar dimensão e arrumar o panorama audiovisual depois do nascimento das privadas.”

Um grupo de personalidades4 avançava, por sua vez, com um documento que intitulou “À procura de um projecto coerente para o Serviço Público de Televisão em Portugal”, no qual se defendia a urgente necessidade de serem criados mecanismos que permitissem que o serviço público não navegasse ao sabor dos governos, administradores e concepções do momento. Após explanarem opiniões que, no seu entender, convergiam para “a actual situação de descrédito a que chegou a RTP”, os subscritores afirmavam: “Nós acreditamos no Serviço Público de Televisão. Acreditamos também que é possível reestruturar a RTP, assim o queiram Governo e Assembleia da República, assim se oiçam e respeitem os seus profissionais, assim se mude a lógica de escolha das suas administrações. Apelamos, pois, ao fim do anúncio pelos diversos agentes partidários de medidas avulsas e por vezes contraditórias, ao sabor de interesses eleitoralistas, à consciencialização de que este é um problema nacional e como tal deve ser encarado, e a um debate político alargado sobre o Serviço Público de Televisão.”

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1 Presidido, na altura, por Consiglieri Pedroso.

2 Edição de 1.3.2002.

3 Foi, recorda-se, Presidente da RTP entre 1978 e 1980, depois de ter sido funcionário praticamente desde o início das emissões regulares. Ouvido por um jornalista da Agência Lusa (serviço divulgado no Diário de Notícias de 7.3.2002, dia em que a RTP completava 45 anos), Soares Louro considerava que “esses Ver maisforam os melhores anos da TV em Portugal, quando ainda não havia privadas e a RTP era o único operador no mercado. Justificava a sua opinião com ‘o aparecimento da TV a cores, a requalificação e reestruturação da empresa, a constituição do património, o início da formação profissional e o aparecimento de uma classe de jornalistas de TV.’ E acrescentava: ‘Há ainda uma grande componente afectiva entre os portugueses e a estação. Creio que esse é mesmo o único capital que resta à RTP.” Voltar a fechar

João Soares Louro faleceu a 26 de Março de 2007, em Lisboa. Contava 74 anos.

4 Entre os subscritores estavam nomes com muito próximas ligações à RTP, como Alfredo Tropa, Carlos Pinto Coelho, Cecília Neto, Clara Alvarez, Diana Andringa, Fernando Balsinha, Jacinto Godinho, Jaime Campos, João Soares Louro, Rui Assis Ferreira e Teresa Olga. Houve quem assinasse o documento, mas desvinculando-se de alguns dos seus Ver maispontos, por certo os mais controversos. Voltar a fechar

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