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O Teatro Circo e o Cineteatro Avenida davam duas ou três sessões por semana. Abundavam os filmes portugueses, os de “cow boys”, os de aventuras (capa e espada e piratas) e alguns grandes dramas italianos, ditos de “faca e alguidar”. O grande herói era o Cantinflas, do mexicano Mário Moreno, que não sei se tinha, no resto do país, igual êxito. Aos seus filmes, por vezes repetidos no dia seguinte, acorriam a cidade e os arredores. Todas as classes sociais assistiam, conservando entre si, evidentemente, as devidas distâncias. Os preços dos bilhetes e a qualidade das cadeiras garantiam as convenientes fronteiras sociais: a 3ª plateia a 2$50, a 2ª a 5$00, a 1ª a 7$50, o balcão a 10$00 e o camarote a 30$00. Todos encontravam o seu lugar. Todos sabiam qual era o seu lugar...

Teatro, “sério” ou “de revista”, era uma raridade absoluta, quase inexistente. Música, clássica ou ligeira, igualmente distante, com excepção de umas bandas, locais ou não, que passavam de vez em quando, designadamente nas romarias e nas “festas santas”: de Santo António, em Vila Real, da Nossa Senhora do Socorro, na Régua e da Senhora dos Remédios, em Lamego. Momento especial era o da passagem, de muito em muito longe, dos “Companheiros da Alegria”, de Igrejas Caeiro, “show” misto de comédia, música, variedades, concursos e publicidade e que literalmente fazia “casa cheia”. Tradição apreciada era a gala anual da “Academia” de Vila Real, pomposa designação que os estudantes finalistas do Liceu se tinham dado a si próprios. Além das festas, do baile, das ceias (com galinhas roubadas...) e dos cortejos do “Regadinho” (“Água leva o regadinho, Água leva o regador, Enquanto rega e não rega, Vou falar ao meu amor”), havia a récita do 1º de Dezembro: variedades, comédia, um entremez, cenas de revista com “compère” e muita crítica local, tudo evidentemente censurado. Não havia um lugar vago. Finalistas e suas famílias tinham os seus primeiros dias de glória.

Havia, evidentemente, a rádio, assim nomeada pelo povo, mas que os senhores chamavam telefonia. Antes dos “transístores”, nem toda a gente tinha. Eram mesmo poucos os que possuíam um aparelho. Os mais pobres, os trabalhadores e a gente do campo, não tinham de todo. A rádio não era única. A Emissora Nacional, a Renascença, o Rádio Clube e os Emissores Norte Reunidos partilhavam a antena. A que se acrescentava uma formidável Rádio Alto Douro, mais amadora do que profissional, de uma companhia privada que emitia a partir da Régua durante meia dúzia de horas por dia e tomava conta da vida local. Era nesta rádio que se ofereciam e ouviam os “discos pedidos”, princípio ou confirmação de tantos namoros. As rádios nacionais públicas serviam para as notícias. As privadas para a música ligeira e sobretudo para o “folhetim radiofónico”, novela interminável que, a seguir à hora de almoço, mobilizava as donas de casa. A partir de certo momento, já nem se dizia “folhetim”, mas simplesmente “O Tide”, que era o nome do anunciante ou do patrocinador.

A “vida social” era previsível. Pertencia sobretudo aos homens. Estes frequentavam os cafés depois de almoço, ao fim da tarde e depois de jantar. Cafés e pastelarias estavam separados por famílias, classes sociais, afinidades políticas e outros princípios tribais. A Gomes, a Brasileira, o Clube, o Excelsior, a Pompeia e o Queirós, além de outros, dividiam entre si os frequentadores que lhes eram mais fiéis do que às mulheres. Senhoras sozinhas nas ruas ou nos espaços públicos, só as das classes altas e às horas decentes do chá. Ou nas compras, evidentemente. Muito poucas, as mais ousadas, saíam à noite com os maridos. Desde que o tempo ficava doce ou quente, o “passeio na avenida” era obrigatório. Os rapazes tinham um pouco mais de folga nas horas de regresso a casa. Os pais saíam em família, com as filhas pela mão. Davam voltas à avenida Carvalho Araújo, pelos passeios dos canteiros centrais. As famílias cumprimentavam-se, os homens levantavam os chapéus e as senhoras trocavam as últimas informações. Os que as tinham mostravam a suas filhas em idade casadoira. A exibição começava pouco depois das oito e meia, acabava antes das dez. Às onze da noite, a cidade estava deserta. Sobravam uns jovens mais estouvados, uns professores do liceu mais novos, alguns advogados ou médicos que ficavam até tarde na intriga. E uns bêbedos. Aqui e ali, a começar pelo Clube de Vila Real, jogava-se a dinheiro, para grande desgosto de muitas “senhoras de sociedade” que, apesar disso, preferiam este passatempo dos maridos a outros divertimentos inconfessáveis.

O culto religioso e as festas ocupavam grande parte do espaço público e do calendário. A começar pelas missas dominicais. Também estavam divididas, não só por bairros, mas sobretudo por classe social. A mais importante era a do meio-dia, na Sé. Todas as pessoas importantes ali vinham. Mulheres à frente, homens atrás. Ir “ver a saída da missa” era obrigatório na agenda: intrigar, trocar impressões ou sorrisos, mostrar-se, ver as raparigas e exibir vestidos. Depois, eram numerosas as procissões, os cortejos, as novenas e toda a liturgia da Páscoa e do Natal. Finalmente, as festas, as romarias e umas vagas peregrinações a santuários vizinhos. Era também à religião que as mulheres, com algum tempo livre, dedicavam as suas energias: Acção Católica, Conferência de São Vicente de Paula, Liga Missionária e outras.

As organizações políticas do regime tinham pindérica existência. A Legião Portuguesa, a Mocidade Portuguesa e a União Nacional limitavam-se ao nome e a umas actividades destinadas a fazer prova de vida, não necessariamente de actividade. Mostravam-se quando a cidade era visitada por um membro do governo ou, de quatro em quatro anos, quando se organizava uma reunião eleitoral chefiada por um ministro. Fazer política não era bem visto. E fazer a política do regime não era fazer política. Tempos estranhos...

A educação distinguia Vila Real. Era a única cidade do distrito com direito a ter um Liceu completo (até ao 7º ano, hoje 12º). Era o Liceu Camilo Castelo Branco, baptizado pelo Estado Novo como Liceu Nacional de Vila Real. Era, curiosamente, misto, o que raramente acontecia em Lisboa e no Porto. Mas os recreios eram separados. Tinha aquecimento central a funcionar e uma confortável biblioteca, na qual, ao fundo à direita, um armário fechado à chave encerrava os livros proibidos e os não recomendados. Estavam ali, por exemplo, livros de poesia de António Botto, Guerra Junqueiro e José Régio, o livro de Egas Moniz sobre a educação sexual, “O crime do Padre Amaro” e “A relíquia” de Eça de Queirós e até a “História da literatura portuguesa” de António José Saraiva e Óscar Lopes. Como estava um pequeno livro de José João Cochofel intitulado “Iniciação estética”, pela simples razão de que tinha na capa uma mulher nua, neste caso a reprodução de uma senhora de P. P. Rubens! Em 1958, todas as turmas de ciências e letras do último ano do liceu eram frequentadas por cerca de 50 rapazes e raparigas, tantos eram os que, em todo o distrito, conseguiam terminar os estudos secundários! Muito antes da Universidade, já a escola secundária tinha feito o desbaste da segregação social. Além do Liceu, que assim pertencia à elite, havia a escola comercial e industrial, duas ou três escolas primárias e outros tantos “colégios” de raparigas, onde residiam as filhas das famílias mais abastadas do distrito. Mais de metade da população do distrito era analfabeta, o que era mais ou menos igual a todos os distritos do interior do país.

Os mais cultos, ou com dinheiro, ou com importância, critérios nem sempre coincidentes, tinham duas ou três vezes por ano um momento alto: os concertos da Pró Arte. Vinham, do Porto ou de Lisboa, dois ou três solistas (nunca falhavam o piano e o violino) dar uma récita. Como não havia sala adequada, tinha de ser no ginásio do Liceu, por entre espaldares e plintos arrumados a um canto. As senhoras vestiam-se a preceito. Foi nesses concertos que vi, pela primeira vez, um ou outro senhor de “smoking” ou de casaco branco e calça preta. Como nos filmes...

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