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Apesar da doçura aparente destes costumes, em Vila Real, nos anos cinquenta, sufocava-se. Sabiase pouco. E tarde. Conhecia-se pouco. E mal. O divertimento era raro e caro. A informação escassa. A cultura inexistente. As novidades velhas. Mesmo assim, Vila Real era privilegiada. Outras pequenas cidades e vilas (Chaves, Régua, Bragança, Mirandela, Alijó, Sabrosa, Murça, Valpaços...) e todas as aldeias estavam ainda, se tal é possível imaginar, muito mais atrasadas, muito mais distantes.
Foi neste ambiente que se começou a falar de televisão, desde 1957, logo que foi uma promessa. Foi aqui que a televisão chegou em 1958. Já era, antes disso, assunto de todas as conversas. Uns poucos tinham visto. Os jornais do Porto escreviam sobre o tema e publicavam os programas do dia. Os primeiros “Guias” de televisão eram vendidos nos quiosques. E nós líamos, como se servisse para qualquer coisa! As emissões começaram por chegar em más condições, situação que durou um ou dois anos. Esse período, de certo modo provisório, foi horrível. Mas a má qualidade e a instabilidade das imagens, com “areia”, interferências e interrupçõe repetidas, não eram suficientes para fazer desistir quem queria ver. Só quando, em 1962, foi reforçado o retransmissor da Serra do Marão, é que as imagens passaram a ser excelentes. Duas casas vendiam aparelhos de televisão. O Dionísio, ou Casa dos Rádios, de Dionísio Rodrigues da Silva, e a Rádio Patinhas. Foi no Dionísio que vi a primeira emissão no dia em que chegou. O anúncio vinha sendo feito durante semanas com cartazes e aparelhos nas montras. Os comerciantes queriam vender aparelhos, mas quase ninguém comprava. Ou porque queriam ver primeiro, ou porque, razão preponderante, não tinham dinheiro suficiente. A verdade é que eram caros, muito caros. Como cara era a licença que tinha de se pagar, enquanto se não descobria o método, depois generalizado, de fugir ao pagamento da taxa. Foram os cafés e as associações que rapidamente descobriram este meio de atrair clientes.
No dia primeiro, a emissão estava anunciada para as oito e meia. Desde as sete que, no Largo da Capela Nova, diante do Dionísio, se começaram a juntar pessoas. Alguns já tinham visto, no Porto, mas eram poucos. Mostravam evidentemente a superioridade dos que conhecem. E diziam maravilhas, para inveja dos que não tinham ainda tido a oportunidade. Mas também recordo um que sorriu com desdém, passou ao lado e murmurou qualquer coisa que acabava com um sabido “... Não é novidade nenhuma”!
Eu tinha quinze anos e sentia que era um dia importante da minha vida. Durante semanas, antes, não se falava de outra coisa. As obras de construção da antena da serra do Marão eram seguidas pelos Vila-realenses como se fosse melhoramento essencial. Havia gente que fazia umas dezenas de quilómetros para se assegurarem pessoalmente de que as obras corriam bem e de que os prazos seriam cumpridos. Nunca, com a água ou a electricidade, se tinha tanto falado ou esperado por uma obra pública. Talvez só no século XIX, quando Emílio Biel (o grande fotógrafo e comerciante alemão do Porto) fez, em Vila Real, a primeira experiência do país de iluminação eléctrica pública. Nos finais da década de cinquenta, a maior parte das casas da cidade já tinha electricidade, mas, à volta, nas aldeias, ainda a maioria dela estava privada. No país inteiro, quase dois terços dos agregados familiares não tinham electricidade em casa. Mesmo que quisessem ou pudessem ter televisão, tal não era possível.

