Uma televisão com história As origens da Televisão Pública (1953/1968)

A presente exposição temporária é uma homenagem aos 60 anos de existência da Televisão de Serviço Público em Portugal. Incide sobre o período 1953/1968, entre o início dos estudos para a sua implantação e o arranque do segundo canal, fase essencial do seu desenvolvimento e consolidação.
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Uma televisão com história A exposição, física e virtual, parte dos aparelhos de receção, um por ano, com um mix de informação do ano respetivo, através dos quais a Televisão Pública chega aos telespectadores, e recorre também, entre outros, como elementos de contextualização, a textos ilustrativos (gentilmente cedidos por Vasco Hogan Teves), câmaras (têm uma ligação muito forte com o público como elemento de identificação), vídeos, fotos e documentos vários.
Trata-se de um período em que a Televisão Pública desenvolve um enorme esforço para se dotar dos meios técnicos e humanos essenciais para chegar com qualidade a todo o país, qualidade não apenas técnica mas também de informação e programação (neste contexto, foi restaurado e integrado na exposição o trono da primeira peça de teatro transmitida pela RTP, em 11 de março de 1957 – “Monólogo do Vaqueiro” com Rui de Carvalho – realçando o papel da televisão pública enquanto agente de difusão cultural desde a sua origem).
Destaque também para o facto de neste período a Televisão Pública promover simultaneamente a sua abertura ao mundo, com particular destaque para a adesão à UER, logo em 1959, e consequentemente à integração plena na rede da Eurovisão no decurso da década de sessenta.
No contexto referido, a presente exposição realça o papel de referência da RTP, na vertente televisiva, desde os primórdios da sua existência, enquanto meio de comunicação (retratando dia após dia os acontecimentos em Portugal e no Mundo, através de programas de informação, entretenimento e cultura), numa fase em que ontem como hoje, demonstra a capacidade de enfrentar e superar os desafios do presente rumo ao futuro.
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1953/56 – Do arranque às emissões da Feira

A RTP iniciou emissões experimentais a 4 de Setembro de 1956, no recinto da Feira Popular de Lisboa, na Palhavã, mas, para se chegar aí, há que recuar pelo menos três anos, ao encontro do Grupo de Estudos de Televisão, que funcionava na órbita da Emissora Nacional de Radiodifusão, e que foi produzindo os estudos necessários à sua implantação, com particular incidência para o relatório “A Televisão em Portugal”, produzido 1954. As imagens que na noite de 4 de Setembro começaram a «circular» um pouco por toda a cidade foram acolhidas com invulgar entusiasmo. Raul Feio e Maria Armanda Falcão foram os primeiros «rostos» da RTP/Feira.

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1953/56 – Do arranque às emissões da Feira

A RTP iniciou emissões experimentais a 4 de setembro de 1956, no recinto da Feira Popular de Lisboa, na Palhavã, mas, para se chegar aí, há que recuar pelo menos três anos, ao encontro do Grupo de Estudos de Televisão, que funcionava na órbita da Emissora Nacional de Radiodifusão, e que foi produzindo os estudos necessários à sua implantação, com particular incidência para o relatório “A Televisão em Portugal”, produzido 1954. Por sua vez, a 15 de Dezembro de 1955, foi assinada a escritura de constituição «defi­nitiva e por iniciativa do Governo» da RTP-Radiotelevisão Portuguesa, SARL. A nova empresa publicou os seus Estatutos no último dia do ano e a 16 de Janeiro de 1956, na Presidência do Conselho de Minis­tros, decorreu o ato de outorga da concessão do serviço público de TV à RTP. Esta tornava-se «gente» e a sua sede (Rua de S. Domingos, à Lapa, em Lisboa) animava-se com os primeiros funcionários e alguns atos signi­ficativos de gestão, como o realizado a 16 de Abril: a abertura das propos­tas apresentadas por 14 das mais importantes empresas europeias e norte---americanas do ramo eletrónico para fornecimento do material necessário ao arranque dos projetos programados sobre o papel e no terreno. Tratava-se de escolher emissores, torres e antenas, equipamentos de imagem (vídeo) e som (áudio), carros de reportagem, ligações hertzianas, etc. Os cadernos de encargos previam o guarnecimento de futuros estúdios em Lisboa e Porto e a conveniência imediata de montagem de centros de emissão em Lisboa, Lousã e Porto, dado ser assim possível cobrir 56% da população do País — estando, entre ela, a de mais elevado poder de compra, potenciais espec­tadores, portanto.

Onde, mais coisa menos coisa, está hoje o auditório de ar livre da Funda­ção Calouste Gulbenkian, erguia-se, em Setembro de 56, um pavilhão pré­-fabricado e, não longe, uma torre tubular com 50 m de altura. No primeiro, instalaram-se os apetrechos técnicos indispensáveis (câma­ras, órgãos de comando, telecinemas, projetores, monitores, etc.); na segunda, a antena que dava resposta ao pequeno emissor de 100 W. As imagens que na noite de 4 de Setembro começaram a «circular» um pouco por toda a cidade (centenas de aparelhos apareceram, como por encanto, nas montras dos mais diversos estabelecimentos e em locais públicos) e até, com algo de inesperado, nos arredores de Lisboa, foram acolhidas com invulgar entusiasmo. Na própria Feira era digno de ser visto o afluxo de público às precárias instalações da RTP e à esplanada que as cercavam. A amenidade das noites de Verão convidava à visita e a verdade é que os mais interessados — ou aguerridos — iam mesmo ao ponto de «colar» os olhos às largas vidraças que os separavam do estúdio e demais dependências técnicas. Tudo à mostra, na tentativa, aliás conseguida, de que a TV se revelasse.

Raul Feio e Maria Armanda Falcão foram os primeiros «rostos» da RTP/Feira, que esteve no ar durante cerca de 50 h repartidas por 24 períodos de emissão (à quarta-feira não havia função para «descanso do pessoal e revisão dos equipamentos») e pelos quais passaram nomes dos mais conhecidos do nosso teatro, rádio, cinema, música, bailado, jornalismo, desporto. Um largo encontro de aprendizes do mesmo ofício, do qual — diga-se, por ser verdade — a maior parte não se saiu mal. Houve mesmo algumas revelações ao nível da comunicabilidade (Maria Helena Varela Santos, por exemplo), a par das esperadas confirmações de Artur Agostinho, Raul Solhado, Vasco Santana, Jorge Alves. Não se passou, é certo, de apontamentos de programas, de estudos de produção, de ensaios de noticiar pela imagem — mas tudo foi de tal modo encorajador que, ao fechar da Feira, não havia na RTP quem não estivesse pronto para outra experiência, o mais breve possível.

Mas foi preciso deixar passar Outubro e Novembro. O novo local onde a RTP «montou casa» viria a ser encontrado com certa rapidez, mas adaptá-lo e equipá-lo para as novas funções não foi assim tão depressa. Era um antigo estúdio cinematográfico, no Lumiar (quase paredes meias com a então ainda viçosa «cidade do cinema», que era a Tóbis/Lisboa Filme), que houve que rodear das dependências precisas à técnica, à programação/produção, à informação e aos núcleos administrativos. O estúdio, propriamente dito, tinha 22 x 14 m e a altura de cerca de dois andares. Montado num ponto elevado do exterior, virado a Monsanto, um grupo de feixes «transportava» o sinal até um pequeno emissor instalado na Estação Radionaval de Monsanto. Graças a ele e às infraestruturas entretanto criadas no Lumiar foi possível iniciar, a 3 de Dezembro, um novo ciclo de emissões de ensaio. Alcançaram-se, naturalmente, locais que não haviam sido abrangidos pelas emissões da Feira e melhorava-se, de forma notória, a receção do sinal. No termo do ano, a situação era classificada como evoluindo favoravelmente para o início das emissões regulares, sem que, no entanto, se arriscasse uma previsão quanto à data. -E no que se refere ao balanço do mês: 25 períodos diurnos de emissões de ensaio (aos domingos não havia programa) perfazendo cerca de 90 h. Na base da programação, o filme, normalmente de origem estrangeira (documentários cedidos por embaixadas e shows musicais, estilo Dina Shore, Perry Como, Ed Sullivan) e uma abundante utilização de imagens fixas (slides com miras técnicas ou outros motivos) para acerto de recetores que, entretanto, começavam a ser vendidos a bom ritmo, na área de Lisboa.

Texto: Vasco Hogan Teves

1957 - DEPOIS DA «RAINHA» - AS EMISSÕES REGULARES

As emissões para ensaios técnicos prosseguiram durante todo o mês de Janeiro, mas a cobertura da visita a Portugal da Rainha Isabel II de Inglaterra (“Reportagens da Rainha” / 17 a 23 de Fevereiro), acabou por constituir o passo decisivo para o arranque das emissões regulares de televisão no nosso país. A primeira emissão regular também batizada, por alguns, de oficial, foi a 7 de Março de 1957.

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1957 - DEPOIS DA «RAINHA» - AS EMISSÕES REGULARES

 As emissões para ensaios técnicos prosseguiram durante todo o mês de Janeiro. Na segunda quinzena programou-se, também, um bloco de emissões noturnas (menos à quarta-feira) «para atender os inúmeros pedidos formulados pelos possuidores de recetores de TV das áreas dos distritos de Lisboa e Setúbal, já abrangidos pelo emissor provisório instalado em Monsanto».

O primeiro canal de câmara, em estúdio, começou a funcionar na emissão noturna de 5 de Fevereiro. Dava hipótese às locuções «ao vivo» (aberturas e fechos de emissão, comentários de introdução e programas filmados, etc.) tornando familiares dos espectadores rostos como os de Gina Esteves, Isabel Wolmar, Fernanda Montemor, Telma, Zélia Alberto, Maria Helena Varela Santos. Outra experiência veio 10 dias depois, graças à introdução de novo canal de câmara: uma rubrica informativa com cerca de 15 minutos de duração (cinco para o noticiário lido, 10 para um «jornal de atualidades», em filme).

Mas o grande acontecimento chegou. Digno de uma rainha. E esta é Isabel II de Inglaterra. A sua visita ao nosso país, na segunda metade do mês, iria constituir a verdadeira «prova de fogo» para uma estação de TV que apenas começava — melhor, e para não fugir à realidade, que ainda não começara... Nada de reportagens diretas que isso ainda vinha longe. Tudo trabalho, e não pouco, para as câmaras de filmar — essas incansáveis «Paillard» de dar corda — e para uma equipa selecionada, preparada e posta no terreno da verdade por um homem que se chamou Baptista Rosa, tão entusiasta como competente. A «Visita da Rainha», sendo um aglomerado de boas recordações de trabalho «sem rede» para os poucos que, na RTP, tiveram a felicidade de o viver, acabou por constituir e isso é importante que se reafirme — o passo decisivo para o arranque das emissões regulares de televisão no nosso país. Se não tivesse havido esse acontecimento, se a RTP não lhe tivesse dado a resposta que deu, é quase certo que alguns meses mais se passariam até que as emissões começassem. Assim, foi uma questão de dias...

A primeira emissão regular também batizada, por alguns, de oficial, foi a 7 de Março de 1957. A idade da RTP começou a ser contada. Maria Helena envolveu os espectadores num sorriso pago — imagem só — por um cachet de... 100 escudos. Os colegas leitores do «noticiário» e das «atualidades», Gomes Ferreira e Luís Arnaut Pombeiro, receberam mais... 50 escudos! — «sabores» da época. A «grande fornalha» estava pois aberta e nela se começaram a consumir os primeiros programas, que os responsáveis pretendiam não ver escapar-se das três faces do triângulo tradicional: informar, educar, recrear. O maior impacte inicial terá sido provocado pelo Teatro (Teleteatro, se preferirem), não sendo por acaso que se escolheu Gil Vicente e «O Monólogo do Vaqueiro» para inaugurar (11/3) a série de bons espetáculos, que se continuou com «Pedido de Casamento», de Tchekov, «Mar», de Miguel Torga, «Um Capricho», de Musset, «Cavalgada para o Mar», de Synge. Os realizadores da RTP, regressados, entretanto, de estágios no estrangeiro, aplicaram-se nesta fase de lançamento do Teatro pela TV, que rapidamente conquistou o público. Citem-se, sem desprestígio para outros que vieram depois, Artur Ramos, Rui Ferrão, Álvaro Benamor, Nuno Fradique e Herlander Peyroteo. Dominada, apesar de tudo, pelo filme, a programação que arrancou a 7 de Março teve outros pontos altos. Uma lembrança para Vasco Santana, na «Anedota da Semana» e, sobretudo, nos «Televizinhos», já que o seu enquadramento no pequeno visor foi um reafirmar de enorme popularidade. «Veja se Adivinha» foi o primeiro concurso da RTP, com Artur Agostinho e Gina Esteves a conduzirem as operações; os programas culturais basearam-se demasiado nas entrevistas em estúdio, a cargo de David Mourão-Ferreira, Leopoldo Nunes, José Amado, Nuno Fradique, Jorge Alves; os programas infantis deram a conhecer uma nova faceta de uma grande senhora do teatro, Aura Abranches, que compôs uma convincente «Tia Zé»; a música clássica e o bailado tiveram também espaços próprios dentro das 665 h de programação emitida e de que parte substancial foi ocupada pelo desporto (com equipas da RTP deslocadas ao estrangeiro para dar cobertura a um dos desportos favoritos dos portugueses: o hóquei em patins) e pelos noticiários e atualidades que, no plano nacional, se recordam através de três grandes reportagens: as das visitas oficiais do Presidente da República, general Craveiro Lopes, ao Brasil (Baptista Rosa e Helder Mendes como enviados especiais); e aos Açores (Baptista Rosa e José Manuel Tudela) e a do vulcão dos Capelinhos, vivida no Faial (Açores) pelos primeiros repórteres da RTP que jogaram a vida ao serviço da sua profissão — Vasco Teves, Carlos Tudela e Alexandre Gonçalves.

 

 Texto: Vasco Hogan Teves

1958 - A RTP MAIS LONGE, NO PAÍS

Em 1958, cerca de 58% da população portuguesa já poder ver as emissões da RTP, graças à conclusão da primeira fase do plano de cobertura do território (44% da sua superfície). Os carros de exterior da RTP, chegados a Lisboa nos últimos meses de 57, começaram a ser utilizados com alguma frequência, possibilitando as tão apreciadas transmissões desportivas (a de um jogo de futebol entre o Sporting e o Áustria F.C. foi a primeira de todas), mas também de outro género: navio «Gil Eanes», Aquário Vasco da Gama, Museu Nacional dos Coches.

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1958 - A RTP MAIS LONGE, NO PAÍS

Com 58% da população portuguesa a já poder ver, em condições modelares, as emissões da RTP, graças à conclusão da primeira fase do plano de cobertura do território (44% da sua superfície), este é um ano em que se atinge 1136 h de programação emitida, estando entre esta 21,6% dedicada a variedades, música ligeira, concursos e folclore — de certa maneira um «retrato» do gosto popular e onde se deve igualmente inserir o teleteatro, que manteve o ritmo de apresentação de uma peça por semana. O Espaço e a sua conquista estavam na ordem do dia e a Eurico da Fonseca restou reunir as duas palavras para com elas titular uma série de programas. Luís Forjaz Trigueiros apresentava, de 15 em 15 dias, «Temas Literários» e entre os programas culturais se poderão encontrar mais uns tantos: «O Mundo Através dos Selos» e «Parada da indústria» (documentários estrangeiros «trabalhados» pelos redatores e locutores da RTP); «Juventude no Mundo» (uma rubrica de intercâmbio com outras estações de televisão, logo, algumas vezes, de produção caseira); «Na Rua e na Estrada», de João Coito e Martinho Simões (que foi o primeiro programa sobre trânsito apresentado na RTP); «Miradoiro», com entrevistas no estúdio; e «Filhos e Pais», produção RTP que procurava retratar os problemas e anseios de uma família comum. Para a família, mas dos mais novos, havia o «Passatempo Infantil», que, neste ano de 58, revelou uma dupla de apresentadores — o Tio João (Gustavo Fontoura) e a sobrinha Teresa (Teresa Mota), e um ator de teatro, José Viana, a comandar «Pico-Pico e Bonecada», que se recorda pelo interesse pedagógico que resultou do confronto das crianças com os seus próprios desenhos, depois recriados pelo artista. Artur Agostinho continuou a apresentar concursos e «Quem Sabe, Sabe!», foi o do ano. Mas interveio, também, em programas de variedades, como «O Senhor que se Segue», onde encontrou Camilo de Oliveira que animaria, depois, «Café Concerto». Programas de puro entretenimento, que deram sequência ao gosto popular, despertado — e bem! — pelos «Três Saloios», no ano anterior, e que foram assinalando a presença dos grandes do music-hall doméstico, à época: Maria de Lurdes Resende, Rui de Mascarenhas, Júlia Barroso, Fátima Bravo, Lina Maria. Os fados e as guitarradas continuaram na rubrica «Lisboa à Noite», realizada nos estúdios do Lumiar, onde se recriou o ambiente de uma casa típica também frequentada por exímios executantes e as vozes do momento. Mas as «Charlas Linguísticas», do padre Raul Machado foram, talvez, o mais assinalável êxito televisivo do ano, «amarrando» aos recetores (e eram já 18 000 os registados e a pagar taxa de utilização, pela primeira vez) um auditório facilmente rendido a esse invulgar comunicador. As unidades móveis da RTP (os carros de exterior), chegados a Lisboa nos últimos meses de 57, começaram a ser utilizadas com alguma frequência. Com câmaras e régie, com capacidade própria para captar e emitir sinal, possibilitaram as tão apreciadas transmissões desportivas (a de um jogo de futebol entre o Sporting e o Áustria F.C. foi a primeira de todas) mas foram igualmente postos ao serviço de reportagens de outro género: visita ao interior do navio «Gil Eanes»; o Aquário Vasco da Gama, por dentro; e o Museu Nacional dos Coches visto pela TV.

 Texto: Vasco Hogan Teves

1959 – Adeus, anos 50!

Bom teste para a capacidade de produção e realização direta, por meios eletrónicos, foi a inauguração do monumento a Cristo-Rei, no Pragal (Almada). Nova base para mais dilatados recursos teve-a a RTP a partir de 20 de Outubro, com a inauguração do Centro de Produção do Porto. E, na perspetiva de ir ainda mais longe, tornou-se membro ativo da UER, passo importante para o seu projeto de ligação à rede da Eurovisão.

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1959 – Adeus, anos 50!

Bom teste para a capacidade de produção e realização direta, por meios eletrónicos, foi a inauguração do monumento a Cristo-Rei, no Pragal (Almada). Os «exteriores» da RTP, que no ano anterior já haviam feito convergir sobre si as atenções, voltaram a estar em evidência nessa grande reportagem, que mobilizou todos os recursos técnicos e humanos. Nova base para mais dilatados recursos teve-a a RTP a partir de 20 de Outubro, com a inauguração do Centro de Produção do Porto. E, na perspetiva — indispensável — de ir ainda mais longe, tornou-se membro ativo da UER — União Europeia de Radiodifusão, passo importante para a continuidade do seu projeto de ligação à rede da Eurovisão, sem dispensa (pelo menos à vista imediata) do «diálogo» com a TV espanhola. «Ou Sim, Ou Não», mais um concurso com Artur Agostinho, naturalmente; e, nas variedades — «O Despertador», quem se lembra? — ei-lo a continuar a sua invulgar versatilidade. Variedades musicais onde surgem — para ficar — Simone de Oliveira e Madalena Iglésias, uma emulação constante, visivelmente mais fabricada pelo público do que pelas próprias. Alves dos Santos ganha um lugar na programação desportiva dominical, sucedendo a nomes como Tavares da Silva, Domingos Lança Moreira, Amadeu José de Freitas. E é, também, o ano do «Telejornal» — a aposta num figurino diferente. Ao sábado, um programa de revisão geral, «Esta Semana Aconteceu». E de certo modo com idêntico objetivo, mas orientado para o mundo do espetáculo, uma revista concebida por Baptista Rosa e Fialho de Oliveira, «Desfile de Espetáculos. De e para a Mulher, há espaço aberto, também, semanalmente, na RTP. É Luísa Damaia quem orienta o conteúdo, sob o título «Nós, as Mulheres». De tudo um pouco, por lá e para elas. Uma rubrica que se manteria na programação por largos anos. Sousa Veloso e Maria de Lurdes Modesto, «cada um é para o que nasce», vedetas de urna televisão com poucas. José Atalaia aparece com «Construção da Música» e promete ficar para fazer mais e novas coisas, do que sabe. Mas quem já não precisa fazer mais — porque o que faz chega e é bem feito — é esse talentoso João Villaret, que, pelas noites de domingo, nos fala da música, do teatro e da poesia, dissolvendo na conversa corrida umas tantas coisas mais, sempre a propósito. Textos de Francisco Mata, acompanhamentos ao piano por Carlos Villaret — que fluido televisivo! Saudades para João Villaret. Como para Armando Vieira Pinto, guionista de televisão como poucos haverá hoje por aí, um escritor de telenovela, sobretudo, e… 20 anos antes de ela chegar. Quanto às séries filmadas, lugar para elas entre as 1200 h da programação/59, em que a publicidade na RTP, embora deficientemente explorada, começava a atingir valores com certa expressão. Para recordar, pelo menos duas: «O Homem Invisível» e «Polícia da Estrada». Adeus, anos 50!

 Texto: Vasco Hogan Teves

1960 - O ANO DAS TRANSMISSÕES INTERNACIONAIS

A entrada em funcionamento do retransmissor da Marofa (15/7) possibilitou a transmissão em direto, a partir de Espanha, da final do Campeonato do Mundo de Hóquei em Patins e dois encontros de futebol, e quase no fim deste ano, de um acontecimento não desportivo, transmitido para Portugal pela primeira vez, em direto, através da rede da Eurovisão: o casamento do rei Balduíno da Bélgica, realizado em Bruxelas (15/12).

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1960 - O ANO DAS TRANSMISSÕES INTERNACIONAIS

No ano das Comemorações Henriquinas, que foram laboriosamente trabalhadas pela RTP em termo documental, que incluiu reportagens diretas de envergadura (desfile naval em Sagres; inauguração do monumento dos Descobrimentos, em Lisboa), quase no fim deste ano, um acontecimento não desportivo é pela primeira vez transmitido para Portugal, em direto, através da rede da Eurovisão: o casamento do rei Balduíno da Bélgica, realizado em Bruxelas (15/12). De cidades do país vizinho já se tinham transmitido, também em direto, a final do Campeonato do Mundo de Hóquei em Patins e dois encontros de futebol, Mas se Portugal viu tudo isso, tal ficou a dever-se ao facto de ter entrado ern funcionamento o retransrnissor da Marofa (15/7), que possibilitou o enlace provisório com a TV espanhola. Um relatório da época já deixava antever que a futura ligação à rede da Eurovisão passaria pelo Alentejo; e que a evolução da técnica da gravação magnética da imagem estava a ser acompanhada com a maior atenção, «dado o grande interesse e economia que apresenta como solução para um melhor aproveitamento dos intérpretes e das instalações técnicas dos estúdios». Mas se o ano foi o das transmissões internacionais, é igualmente verdade que a própria RTP produziu e transmitiu cerca de 150 programas do exterior: desportivos, culturais, religiosos e de atualidade. Ano de intensa atividade, portanto, para as unidades móveis e urna contribuição importante para o número total de horas de emissão: 1200. Para estas concorreram, também, as 47 peças de teatro representadas — o que continuava a ser facto digno de registo, se atendermos aos meios técnicos e às áreas disponíveis. A programas corno «Culinária», «TV Rural», «Charlas Linguísticas» e «João Villaret», vem juntar-se «Museu do Cinema», com António Lopes Ribeiro a alinhar, assim, com os melhores «conversadores» da nossa TV. No que toca às variedades, sempre tão apreciadas, o ano assinala-se pela presença ante as câmaras da RTP de alguns nomes grandes do music-hall internacional -- Josephine Baker, Marcel Marceau, Luis Mariano, Torrebruno, por exemplo. Ao todo, cerca de 300 espetáculos. Urna referência para a Informação, Henrique Mendes, revelação do ano - segundo a crítica - esteve, normalmente, com a equipa mais tradicional do Telejornal (Gomes Ferreira-- Fialho Gouveia); no início do ano, o terramoto de Agadir mobiliza para o local uma equipa de enviados especiais (Vasco Teves e Augusto Cabrita), que deu aos espectadores portugueses o relato possível de uma catástrofe de enormes proporções.

Texto: Vasco Hogan Teves

1961 - ANO DURO PARA A INFORMAÇÃO

Um ano de grande atividade para os homens da Informação. Mobilizados para Angola, «escrevem» com as câmaras de filmar as reportagens da guerra. No território que deixava de ser a Índia Portuguesa, dois repórteres são internados num campo de concentração e aí ficam cerca de 2 meses. Foram eles, Neves da Costa e Serras Fernandes.

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1961 - ANO DURO PARA A INFORMAÇÃO

Um ano de grande atividade para os homens da Informação. Mobilizados para Angola, «escrevem» com as câmaras de filmar as reportagens da guerra, que são, ainda hoje, o testemunho mais credível. No território que deixava de ser a Índia Portuguesa, dois repórteres são internados num campo de concentração e aí ficam cerca de 2 meses. Foram eles, Neves da Costa e Serras Fernandes. Enquanto lhes foi possível fizeram passar para Lisboa os filmes que iam impressionando. A forte densidade informativa traduziu-se, naturalmente, nos números: 340 h de noticiários (Telejornal) e atualidades (desporto não incluído), ou seja 19% do tempo total de emissão da RTP neste ano. O País tinha 67 712 aparelhos de TV registados que, com muitos mais «clandestinos», passavam «Bonanza» e «Danger Man»; e peças de teatro (49); e longas-metragens (41), entre as quais alguns êxitos do antigo cinema português. João Villaret desaparecera logo no começo do ano e o pequeno visor, vazio embora de um talento invulgar, ganhou outro, que também falava sobre Teatro: António Pedro. «Melodias de Sempre», uma produção de êxito. «Histórias Simples da Gente Cá do Meu Bairro», um folhetim razoavelmente concebido para televisão e que mereceu atenções de espectadores e críticos.

Texto: Vasco Hogan Teves

1962 - A TV NA IDADE DO SATÉLITE

Dez de Julho é uma data que pertence à história da Televisão. Lançado para o Espaço o seu primeiro satélite ativo de telecomunicações, os Estados Unidos iniciavam uma nova era, a da Mundovisão. Em consequência, a 23 de Julho, pelo menos 200 milhões de pessoas, em Portugal, no norte da América e na Europa, assistem pela primeira vez e em simultâneo a uma transmissão direta transatlântica de programas de TV.

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1962 - A TV NA IDADE DO SATÉLITE

Dez de Julho é uma data que pertence à história da Televisão. Lançado para o Espaço o seu primeiro satélite ativo de telecomunicações, os Estados Unidos iniciavam uma nova era — a da Mundovisão, ensaiada com êxito 13 dias depois, quando pelo menos 200 milhões de pessoas no norte da América e na Europa vêem, pela primeira vez e em simultâneo uma transmissão direta transatlântica de programas de TV. Concretizava-se, de modo positivo, o ciclo das possibilidades espantosas do «mais inteligente pássaro» criado pelo Homem para voos de dramáticas revelações. Cérebro no Espaço, o «Telstar» denuncia uma espantosa realidade, que é a de cada um estar mais perto de cada um, neste Mundo em que vivemos. Mensagem importante para esse mesmo Mundo proveio de Roma: o Concílio Vaticano II teve, na RTP, uma cobertura noticiosa (assegurada no local por José Mensurado) que deixou à distância a de qualquer outro órgão de comunicação social. A assinalar também a cobertura da guerra colonial. Ao nível da programação, o ano voltou a ter no teleteatro um dos pontes mais altos. Uma maioria de autores portugueses, por vezes dois espetáculos por semana e bom acolhimento a uma série de transmissões efetuadas de salas de Lisboa. De lembrar os folhetins «Cenas da Vida de Uma Atriz», de Costa Ferreira, e «Diálogos», de Olavo d'Eça Leal. Pelas variedades musicais passaram várias vedetas internacionais: Patachou e Sacha Distel, por exemplo. «Dr. Kildare», a escolha mais feliz entre o lote das séries («Bonanza» aparte, naturalmente). Outro facto importante da sua vida empresarial: a RTP celebrava um polémico contrato com uma sociedade especialmente constituída para explorar, em exclusividade, a partir de 1/11, a publicidade nas emissões. Era a Movierecord, SARL, com capitais portugueses e espanhóis. Primeira consequência da operação: as tabelas da publicidade na TV aumentaram substancialmente. Razão para os quase 35 mil contos de receita líquida? Certamente. O tempo diário médio dedicado às transmissões publicitárias foi, no ano, de 28 minutos.

Texto: Vasco Hogan Teves

 

1963 - DA RTP PARA A EUROVISÃO PELA 1.ª VEZ

A RTP põe no ar, em direto, a sua primeira contribuição para a rede da Eurovisão: a reportagem integral do jogo de futebol Benfica-Feyjnoord das meias-finais da Taça dos Clubes Campeões Europeus. Sobre a hora do começo do jogo o Benfica consentiu na sua transmissão também para os espectadores portugueses.

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1963 - DA RTP PARA A EUROVISÃO PELA 1.ª VEZ

A RTP põe no ar, em direto, a sua primeira contribuição para a rede da Eurovisão: a reportagem integral do jogo de futebol Benfica-Feyjnoord das meias-finais da Taça dos Clubes Campeões Europeus. Uma ligação provisória, com equipamentos portáteis, traçou o percurso Lisboa-Coruche-Arraiolos-Portel. Daí um salto até S. José e Guadalcanal, em Espanha, e os sinais de imagem e de som a chegarem em boas condições a esse país, a França, Holanda e Suécia. Sobre a hora do começo do jogo o Benfica consentiu na sua transmissão também para os espectadores portugueses. Primórdios do conflito futebol-TV... «Poesia, Canto e Dança» é a presença regular dos Estúdios do Porto na programação nacional — uma rubrica que não dispensa o autor, Pedro Homem de Melo, um nome para uma época da nossa TV. Ramiro da Fonseca tem dois programas por semana — «Onde a Ciência Começa» e «Vida Sã em Corpo São». José Atalaia vai «Falando de Música», enquanto Filipe Nogueira apresenta «TV Motor», e Artur Varatojo edifica pequenos enigmas para os espectadores decifrarem — é a «Seleção Policial». Um padre, de nome António Ribeiro, traçava, então, as «Encruzilhadas da Vida». Quem falava de séries falava, naturalmente, de «Mr. Ed» e de «Hong-Kong». Talvez, também, de «Os Flintstones». Camilo de Oliveira fez certo furor com as barracas que, semanalmente, foi armando na «Feira» e dois concursos — «Passaporte TV» e «Ou Sim ou Não» deram, a alguns, os bons prémios do ano. Um ano em que a RTP ultrapassou as 2000 h de emissão. Seriam precisos mais 4 anos para entrar na casa das 3000 h. Entretanto, aos dois estúdios disponíveis nas suas próprias instalações, a RTP juntava outro, por aluguer à Tóbis, não muito longe, portanto. Era o estúdio Cottinelli Telmo, onde se começaram a introduzir as técnicas específicas de TV, notadamente, quatro canais de câmara. Para que, em breve, ficasse operacional.

Texto: Vasco Hogan Teves

1964 - ESTREIA NO EUROFESTIVAL

Operacional o estúdio Cottinelli Telmo, aí se realizou, o «Grande Prémio TV da Canção Portuguesa», que daria a um cançonetista o passaporte para o «Concurso Eurovisão da Canção». António Calvário com a canção «Oração» foi o escolhido. Em Outubro iniciaram-se as emissões regulares de TV Educativa. Destaque ainda para a introdução na RTP dos primeiros equipamentos de gravação magnética — o videotape.

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1964 - ESTREIA NO EUROFESTIVAL

Operacional o estúdio Cottinelli Telmo, aí se realizou, a 2/2, o «Grande Prémio TV da Canção Portuguesa», que daria a um cançonetista o passaporte para a Eurovisão. António Calvário pegou nele e carimbou-o, totalmente em branco, em Copenhaga. Estava-se a 21/3, o «Concurso Eurovisão da Canção» tinha começado anos atrás (sem a RTP) e ao acolher, dessa feita, «Oração», não se comoveu. Para os espectadores portugueses, o Concurso só chegou por via de mais umas ligações precárias, embora protocolos com a Espanha, para a próxima ligação hertziana permanente entre os dois países — e, por consequência à rede da Eurovisão tenham sido avançados. Mas facto importante do ano, talvez mesmo o mais importante, seria o da introdução na RTP dos primeiros equipamentos de gravação magnética — o videotape. Assim se ampliavam, de modo sensível, as possibilidades de uma melhor, mais frequente e variada produção de programas, especialmente dramáticos e musicais. Ao mesmo tempo, porém, terminava urna época que, sob o signo do «direto», por ele inteiramente dominada, fora sobremaneira galvanizante e motivadora. Em Outubro iniciaram-se as emissões regulares de TV Educativa, sob a orientação do Ministério da Educação Nacional. Ensaiadas em 1963, as emissões acabariam por justificar a existência do Instituto de Meios Audiovisuais de Educação (IMAVE) e da Telescola, criados em 31 de Dezembro deste ano. «Melodias de Sempre» teve novo alento e voltou a ser o espetáculo de variedades preferido do público. Boa recetividade teve, também, uma recriação de «Os Três Saloios», quase com a mesma equipa de 57 — apenas Raul Solnado rendeu Costinha. Os filmes de longa-metragem, a «Sétima Arte», selecionados e apresentados por Fernando Garcia, continuaram a ter fiéis seguidores, enquanto «Desporto e Natureza» (Manuel do Amaral e Helder Mendes) e «Cinema 64» (uma antiga rubrica de Baptista Rosa, que ia mudando de números a par com o calendário) mantiveram o interesse de uma plateia mais exigente. «Fúria», «Lassie» e «Caravana» -- o evidente predomínio das séries americanas.

Texto: Vasco Hogan Teves

1965 - EUROVISÃO FINALMENTE, NOSSA TAMBÉM

A entrada em funcionamento do emissor do Mendro (a 1/12) não possibilitou, apenas, um bom acréscimo no número de espectadores potenciais O que representou foi, sobretudo, a ligação definitiva, permanente com a Espanha e com a Eurovisão (e vice-versa). Terminavam, pois, as ligações provisórias que, apesar de o serem, a tão bons resultados tinham conduzido, certo que pela capacidade técnica evidenciada pelos profissionais da RTP.

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1965 - EUROVISÃO FINALMENTE, NOSSA TAMBÉM

A entrada em funcionamento do emissor do Mendro (a 1/12) não possibilitou, apenas, um bom acréscimo no número de espectadores potenciais. O que representou foi, sobretudo, a ligação definitiva, permanente com a Espanha e com a Eurovisão (e vice-versa). Terminavam, pois, as ligações provisórias que, apesar de o serem, a tão bons resultados tinham conduzido, certo que pela capacidade técnica evidenciada pelos profissionais da RTP. Catorze programas postos no ar, por esse sistema, provam-no. E um deles, a 2/5, teve a sigla da Mundovisão — o preparado para assinalar a entrada em operações do satélite «Early Bird». Em paralelo com a programação educativa, complementar do estudo e visando a promoção cultural de um público heterogéneo, iniciaram-se na RTP (11/10), as emissões do Curso Unificado da Telescola, irradiadas a partir dos estúdios de Vila Nova de Gaia. «Ronda Poética», com Maria Germana Tanger, e «Hospital das Letras», com David Mourão-Ferreira, marcaram a programação cultural do ano. E, já agora, essa excelente série conduzida por Leonard Bernstein, «Concerto para Jovens» -- que todos viram, sem limite de idade. «Viagens sem Passaporte» e «Artesanato e Decoração» trouxeram até aos pequenos visores os rostos de duas mulheres bem fotogénicas, Maria João Aguiar e Ema Preto Pacheco, respetivamente. Outra mulher liderou o show – Lucy (Lucille Ball); e «Casei com uma Feiticeira» foi uma divertidíssima comédia, ainda hoje recordada. Artur Agostinho apresentava «Momento Desportivo», à 2ª feira o rescaldo do domingo; Niza da Silva falava sobre tauromaquia em «Barreira de Sombra»; e Joaquim Filipe Nogueira juntava a «TV Motor» uma rubrica-alerta, «Sangue na Estrada». Sobre tudo isto, «cacharolete» da semana, se detinha Jorge Alves, no seu «Cartaz TV», onde, certamente, não se dispensou de remeter os espectadores para «Cruzeiro de Férias», um dos últimos trabalhos de António Silva na RTP. Cidália Meireles teve também o seu espaço. Destaque ainda para “Riso e Ritmo”, programa de Variedades com Armando Cortez e  Francisco Nicholson, tendo por realizador Luís Andrade. Falando mais sério, na música: um jovem pianista, António Vitorino de Almeida, estreava-se na RTP.

Texto: Vasco Hogan Teves

1966 - O FUTEBOL DO NOSSO CONTENTAMENTO

O acesso à Eurovisão possibilitou a transmissão em direto de cinquenta e oito programas, com origem em diversos países da Europa e dos Estados Unidos, com uma qualidade de imagem que não existia anteriormente. Foi o caso das transmissões do Campeonato do Mundo de Futebol, em Inglaterra, onde a equipa portuguesa conquistou um brilhante terceiro lugar. Destaque também neste ano para a grande reportagem da inauguração da ponte sobre o Tejo.

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1966 - O FUTEBOL DO NOSSO CONTENTAMENTO

O livre acesso, nos dois sentidos, a uma rede transportadora de sinal TV, que se estendia, na altura, por 13 000 quilómetros — ou muitos mais, se tivermos em conta que a TV internacional é cada vez menos a Europa para ser cada vez mais o Mundo — marca profundamente este primeiro ano de «contactos abertos» com a Eurovisão (28 membros ativos e 40 associados, em 1966). Cinquenta e oito programas transmitidos em direto, com origem em diversos países da Europa e dos Estados Unidos, com a certeza de que se oferecia ao público-espectador uma qualidade de imagem que não existia anteriormente. Foi assim possível, por exemplo, assistir às impecáveis transmissões (10) do Campeonato do Mundo de Futebol, em Inglaterra, onde a equipa portuguesa conquistou um brilhante terceiro lugar, colhendo a RTP, para lá de triunfos de ordem técnica e de programação, consoladores resultados financeiros, já que terá sido esse um dos melhores períodos, até então, na venda de recetores de TV e na promoção publicitária. No fim do ano estavam registados 219 117 aparelhos e a publicidade, a uma média diária de apresentação da ordem dos 25,5 minutos, rendeu cerca de 50 mil contos. Para a Eurovisão seguiram, igualmente, imagens de um Portugal-Suécia em futebol, pequenos apontamentos filmados de acontecimentos da atualidade nacional (que antecipavam uma presença regular da RTP na «Troca Diária de Noticias») e a grande reportagem da inauguração da ponte sobre o Tejo, complexa tarefa de produção e realização, para a qual se recebeu apoio, em equipamento técnico, das televisões espanhola e francesa. Cerca de três anos antes, já a RTP realizara, e sem auxílio externo, uma boa cobertura da inauguração da Ponte da Arrábida, no Porto. Porém, a grandiosidade da obra erguida sobre as águas do Tejo, exigiu da nossa TV um ainda maior empenhamento, de tal forma que o trabalho de exterior então realizado foi modelar. Um ano com 2930 h de emissão e no qual a Informação voltou a cobrar a parte mais importante — 11,20%. Logo, depois, os programas filmados — 10,53%. Entre estes, as séries do ano: «O Santo», «Mister Solo», «Olho Vivo», «O Barão, «Um Homem Chamado Shenandoah». A RTP foi ao teatro e gravou «As Árvores Morrem de Pé». O videotape guarda a recordação de Palmira Bastos.

Texto: Vasco Hogan Teves

1967 - O PAPA EM PORTUGAL

A primeira década de existência das emissões regulares da RTP é marcada pela cobertura direta da visita a Fátima, a 13 de Maio, de S.S. o Papa Paulo VI. Ao assegurar a reportagem deste acontecimento a RTP evidenciava uma maturidade que bem confirmaria, poucos dias depois (22/5), com a transmissão direta, a partir de Lisboa, da final da Taça dos Clubes Campeões Europeus de Futebol, entre as equipas do Celtic de Glasgow e do Internazionale de Milão.

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1967 - O PAPA EM PORTUGAL

A primeira década de existência das emissões regulares da RTP é significativamente assinalada com a mais importante e espetacular cobertura direta: a da visita a Fátima, a 13 de Maio, de S.S. o Papa Paulo VI. Ficava assim, distante, embora ocorrido no ano anterior, o trabalho realizado em Lisboa, quando da inauguração da ponte. Fátima, o cinquentenário das Aparições, o Papa — este, principalmente — atraíram as atenções do Mundo sobre o nosso país. A reportagem do acontecimento foi planificada e dirigida por técnicos e realizadores portugueses, com a colaboração material das televisões espanhola, francesa e italiana. Ao realizar esta cobertura, em condições naturalmente difíceis, até pela área imensa que foi necessário guarnecer com meios para transmissão; ao assegurar a reportagem de acontecimento da maior responsabilidade (em direto, durante cinco horas para oito países da Europa e para os Estados Unidos, Canadá e México) a RTP evidenciava uma maturidade que, aliás, bem confirmaria, poucos dias depois (22/5), com a transmissão direta, a partir de Lisboa, da final da Taça dos Clubes Campeões Europeus de Futebol, entre as equipas do Celtic de Glasgow e do Internazionale de Milão, que pelo número de organismos que aderiram (23 da Eurovisão e da Intervisão) e de comentadores presentes no Estádio Nacional (22) foi a maior até então realizada de um acontecimento desportivo. Para a Eurovisão se fariam também seguir, em quatro dias consecutivos, imagens das trágicas inundações de Novembro, em Lisboa e arredores -- acontecimento que, em termos de emoção popular, acabaria por suplantar a visita papal. Da «grelha» de emissões do ano, destaque, entre outros para os programas  «Horizonte», do experimentado profissional Baptista Rosa;  «Histórias da Música», por João de Freitas Branco; e “Melodias de Sempre”, do produtor Melo Pereira.

 

Texto: Vasco Hogan Teves

1968 - ARRANCA O 2.° PROGRAMA

Ano marcado por fortes incidências políticas (substituição do Presidente do Conselho de Ministros), este ano foi também marcado pelos Jogos Olímpicos, no México, bem como pela entrada em funcionamento, no dia 25 de Dezembro, do primeiro emissor de UHF instalado em Lisboa (Monsanto), permitindo o acesso dos espectadores servidos por esse centro emissor (e que dispusessem de aparelhos e antenas adequados) a um 2º Programa.

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1968 - ARRANCA O 2.° PROGRAMA

Ano marcado por fortes incidências políticas (decorrentes da substituição do Presidente do Conselho de Ministros), com os inerentes reflexos numa TV de que o Governo muito se servia, este 1968 foi também marcado pelos Jogos Olímpicos, no México, e que vimos em impecáveis transmissões via satélite. «Segredos do Mar», uma série documental de excecional qualidade, trabalho de Helder Mendes para a RTP. João de Freitas Branco foi uma das figuras do ano televisivo – e não apenas pelas suas “Histórias da Música”, exemplarmente narradas, mas, também, pelas boas achegas que deu às transmissões de espetáculos de ópera que colheram boas audiências. Outros foram os géneros de música de Manuel Jorge Veloso (“TV Jazz”) e de Pedro Homem de Melo (“Folclore”). Sousa Veloso (“TV Rural”, sempre), Ramiro da Fonseca (“Vida Sã em Corpo São”, nova série de programas) e Joaquim Filipe Nogueira (“Sangue na Estrada”, a permanência de uma cruzada cívica) mantiveram espectadores atentos, fiéis tanto quanto os de António Lopes Ribeiro que, no seu “Museu”, insistia em fazer brilhar as mais longínquas pérolas do cinema. Amália Rodrigues fez teatro em «A Sapateira Prodigiosa» e duas boas séries filmadas ficaram na retina: «O Fugitivo» e «Missão Impossível».

Facto a merecer relevo é o número de aparelhos-receptores licenciados ter ultrapassado 300 000 e, não menos importante, é saber-se que 3 000 novos aparelhos eram registados mensalmente. Chegava-se ao final do ano de 68 com este número, preciso: 305 623. Sabia-se, porém, da existência de alguns milhares de outros não registados (entre 10 a 20 000, avançava-se, sem que fosse possível a confirmação), o que, para efeitos de auditório, representava aumento a ter em conta. Auditório que continuava a ser servido por sistemas de distribuição de sinal cada vez mais distendidos sobre a geografia do País. Em 26 de Novembro entrou em funcionamento um muito importante retransmissor, o de S. Miguel, para servir o sotavento algarvio. Nove dias antes fora a vez do retransmissor de Caminha, que deu forte contributo para a melhoria da recepção no vale do Minho.

O ano de 1968 ficou também marcado pela entrada em funcionamento, no dia 25 de Dezembro de 1968, do primeiro emissor de UHF instalado em Lisboa (Monsanto), assim permitindo o acesso dos espectadores servidos por esse centro emissor (e que dispusessem de aparelhos e antenas adequados) a um 2º Programa.O novo emissor do 2º Programa passou a transmitir no canal 25. Sob o ponto de vista estritamente técnico deu possibilidade de se promoverem investigações ligadas à emissão em UHF, com vista à sua extensão ao resto do País.

No que respeita à programação, ficaram desde logo as intenções expressas pelo Diretor-geral adjunto, Eng.º Matos Correia, que as apontou perante as câmaras, na emissão inaugural: “O 2º Programa, que entrou na sua fase experimental, tem como objetivo fundamental – num futuro que esperamos seja próximo – propor aos Srs. espectadores um programa de emissões complementares das existentes, ou de natureza diferente, quando consideradas comparativamente as emissões do 1º e 2º programa. Procurar-se-á oferecer a possibilidade de escolha entre géneros diferentes, com a preocupação de atingir um equilíbrio que permita uma seleção coerente com as preferências de cada um, ou a apresentação de determinadas emissões que, pela sua natureza experimental ou demasiado especializada, a existência de um só programa não justificaria nem tornaria legítimo.”

Mas o que se passou foi que as emissões experimentais tinham acento tónico na repetição de rúbricas de estúdio do 1º. O espectador começou a habituar-se a ir procurar ao 2º aquilo que lhe tinha escapado no 1º. Uma atitude que se correspondeu a propósito dos responsáveis, a verdade é que acabaria por merecer várias e apaixonadas críticas, principalmente dos mais exigentes, dos que queriam dispor, rápido, de uma real alternativa de programação, uma escolha entre os produtos que se serviam à mesma hora em duas origens diferentes. Um desejo, compreensível, dos espectadores menos acomodados, mas que ainda levaria o seu tempo a chegar. 

Texto: Vasco Hogan Teves