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Voltemos aos anos da fundação. Consta que Salazar tinha dúvidas, do que não há evidência. E que Marcelo Caetano era o grande defensor, o que está demonstrado. De qualquer maneira, o regime, entre 1956 e 1960, sentia-se seguro. Com as excepções dos casos de Humberto Delgado e do Bispo do Porto, que deixarão sequelas para mais tarde, a vida política, financeira e económica parecia tranquila. Estavam longe os anos difíceis do pós-guerra, quando se chegou a pensar que, com a vitória dos aliados, as ditaduras ibéricas iriam também desaparecer. Com o aprofundamento dos conflitos e da rivalidade entre Leste e Oeste, o regime de Salazar é plenamente reconhecido pelas potências, pelos países democráticos do Ocidente e pela comunidade internacional. Portugal é admitido na NATO (ao contrário da Espanha), nas Nações Unidas, no Banco Mundial e no Fundo Monetário Internacional. No fim da década, Portugal é um dos fundadores da EFTA, Associação Europeia de Comércio Livre.

Vivia-se um ponto alto do regime. Não só externamente, como também no plano nacional. Em 1956, tinha-se criado a Fundação Calouste Gulbenkian, cuja formidável acção se começou logo a sentir. Havia dinheiro, o Estado tinha as suas finanças de boa saúde. Fazem-se esforços por criar políticas económicas e de desenvolvimento mais consistentes. Surgem os Planos de Fomento. Constroem-se barragens e estradas. Lançam-se obras de infraestrutura e animam-se algumas indústrias de ba se. De tudo isso, a televisão faz-se testemunha, elevando a propaganda do regime a níveis inéditos. A RTP parecia ser o sinal mais visível de um novo edifício. A euforia inicial da televisão não era apenas a que resultava deste novo meio de comunicação e de divertimento, era também a tradução de um clima geral. Que foi de pouca dura. De 1960 a 1962, as turbulências políticas internas, as manifestações operárias, os movimentos estudantis, a guerra em Angola e a perda de Goa marcam o fim de um período maior do regime. E o princípio das grandes perturbações que vão durar alguns anos.

Mas tratava-se também de um momento charneira, entre o país fechado e a sociedade aberta que sub-repticiamente se preparava. O crescimento económico anunciava-se vigoroso. A emigração para a Europa começou, assim como turismo de estrangeiros em Portugal. Uma vaga de industrialização, alimentada em grande parte por investimentos estrangeiros, animou a economia. As migrações dos campos para as cidades aceleram. Uma nova sociedade, urbana e industrial, começou a surgir. As classes médias cresceram mais rapidamente. Na economia e na sociedade vivia-se um novo clima. Só a política resistia. A guerra colonial vai dominar os anos seguintes. A televisão moderniza-se, desenvolve-se o grande divertimento, surgem os “Festivais da canção”, os “Jogos sem fronteiras” e outros programas que atraíam grandes audiências. Mas a censura resistia. Depois da morte de Salazar, Caetano tentou modernizar ou arejar a vida pública. Ele próprio, entusiasta desde sempre com a televisão, utilizou-a o mais possível e inaugurou, também através da televisão, os contactos “directos” com a população. Mas as pressões liberais eram demasiadas. A vontade de liberdade também. Mais do que isso, a guerra iria liquidar o regime, depois de ter afastado qualquer hipótese de liberalização real.

A televisão portuguesa desempenhou papel importante neste processo de mudança. Tanto na abertura dos costumes, como no fechamento da política. Tanto no estímulo à curiosidade, como na propaganda. Tanto no conhecimento, como na manipulação. A RTP não foi só observadora, registo e veículo, foi também parte integrante do Estado Novo. Como o foi, depois, da revolução, da contrarevolução e da democracia. Tal como em todos os países europeus, a televisão era do Estado e estava na dependência do poder político. Se este não era democrático, a televisão também o não era. Para o melhor e o pior, a televisão traduz o regime político e a sociedade em que vive. Pode ser melhor, pode procurar elevar os padrões de vida colectiva, como pode ser semelhante, ou mesmo contribuir para o declínio cultural dos cidadãos. Por isso é grande o seu poder e é vasta a sua influência. Talvez não tanto quanto se pensa, mas de qualquer maneira “apetecível”. Por isso, os poderes políticos conhecidos em Portugal, nestes últimos cinquenta anos, tudo fizeram por a utilizar. Sem excepção. Os autoritários, os revolucionários, os contra-revolucionários e os democratas. E, dentro destes, todos os partidos com acesso ao governo fizeram o necessário por se assegurar o domínio ou a conformidade da televisão. Os dirigentes políticos e os governantes parecem ter uma confiança ilimitada na capacidade da televisão. Para moldar as consciências? Para formar adeptos? Para evitar a voz dos outros, dos opositores? Ou simplesmente para publicitar e ampliar a sua acção? Verdade é que nenhum poder político resistiu a tentar governar e usar a televisão pública, ou seduzir e conquistar a televisão privada.

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