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  • Década de 80
  • A RTP aos 25 Anos, as primeiras telenovelas portuguesas
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Humor à parte, a verdade é que a RTP vinha de iniciar um processo regular de sondagens ao seu auditório4 que dotou a nossa Televisão de um meio de contacto directo e regular com o seu público. Um “instrumento” da maior utilidade, que começou a ser de leitura obrigatória pelos responsáveis da empresa, principalmente pelos directores de Programação e Informação e, claro está, pelo Presidente Proença de Carvalho que, aos índices positivos já recolhidos, queria juntar outros: “A RTP aumentou o seu tempo de emissão, não obstante as limitações quanto ao horário de fecho pelas razões conhecidas (restrições ao consumo de energia eléctrica); emite agora à hora do almoço, emite pela tarde fora durante as férias do Natal, do Carnaval e da Páscoa e espera poder emitir toda a tarde, a partir das 13h., em Outubro próximo. Deve-o às donas de casa, aos reformados, a todos para quantos são longas as horas da tarde.”5

Com efeito, desde 15 de Fevereiro que a RTP iniciara as emissões à hora do almoço. Para sermos mais precisos, reiniciara-as, pois sabemos que elas tinham existido antes do 25 de Abril. Agora, começavam quando faltavam 10 minutos para o meio-dia, com uma série filmada, passando depois ao “prato forte”, que era uma telenovela brasileira – na circunstancia, “Ciranda de Pedra”, segundo o primeiro romance de Lygia Fagundes Telles, que trouxe, de volta, Lucélia Santos e Armando Bógus –, e terminando com o “1º Jornal”, às 13 h. Ficaria por concretizar a previsão quanto ao período da tarde, uma vez que, em Outubro, ainda a RTP-1 continuava a reservar 5 horas da sua emissão (13.30 às 18.30) a programas escolares, a cargo da Direcção Geral do Ensino Básico. Talvez em jeito de compensação, mas, seguramente, em consequência de pareceres produzidos pelo serviço que estudava as audiências (e sem que seja de esquecer o espírito inovador de Proença de Carvalho), inaugurava-se a Televisão ao pequeno-almoço. Era o “Bom-Dia Portugal” que chegava, e então se disse, como mais um projecto-sinalizador dos 25 anos recentes. Talvez sim, também, mas o certo é que essa emissão, das 8 às 9.30 h. (de 2ª a 6ª feira) iria provocar um certo impacto e tornar-se mesmo uma experiência pioneira na Europa.6

“Bom-Dia Portugal” teve características inovadoras, manteve uma natural preocupação com o conteúdo informativo (a produtora era a Direcção de Informação) e de modo algum abdicou do tratamento de assuntos susceptíveis de interessar aos espectadores “disponíveis” para o horário. Estudos levados a efeito provaram que o auditório era volante, isto é, mudava todos os 20 ou 30 minutos – um dado a considerar. Assim, as notícias mais importantes eram repetidas com alguma frequência e os apontamentos que as marginavam assumiam a forma de apontamentos, muito breves, sobre meteorologia, trânsito, turismo, culinária, ginástica, os preços na praça, bricolage, astrologia, etc. – impossível designá-los todos porque eram... perto de 40. Alguns especialistas convidados ocupavam-se deles. Raúl Durão foi o coordenador do projecto e um dos seus apresentadores em estúdio.7

Com a introdução do “Bom-Dia Portugal”, passou-se que a emissão da RTP-1 ia, sem interrupção, das 8 às 22.30/23 h., aos dias úteis, embora com a já mencionada intercalação dos programas educativos. Nas manhãs da RTP-1 introduziram-se, ainda, algumas rubricas a cargo de personalidades credenciadas para as abordarem: prof. Calisto de Melo, ginástica; dr. Nuno Godinho de Matos, temas jurídicos; drª Águeda Bárcia, medicina materno-infantil; e Filipa Vacondeus, culinária. Como se deverá assinalar a preocupação da Directora Maria Elisa em pôr aqueles que tinham sido seus colegas na área da locução (por onde ela iniciara carreira da RTP) a fazer coisas que se vissem e que dignificassem a sua profissão. Assim, Maria Margarida e Maria João Metello fizeram de “Gente e Ideias” um espaço de entrevistas, em directo, a personalidades em destaque; Manuela Moura Guedes, Helena Torres, Eládio Clímaco e João Abel tiveram também uma zona de programação virada para a divulgação cultural e aí dialogaram com vultos da nossa intelectualidade; e Margarida Mercês de Melo ocupou-se de “Ela por Elas”, seleccionando matérias de interesse para um auditório predominantemente feminino.

A entrada em funcionamento de um novo estúdio nas instalações do Lumiar (o estúdio 1) já terá possibilitado melhores condições de trabalho para quem também se ocupava de programas como estes. Com efeito, o Centro de Produção de Lisboa dispunha, desde 1 de Abril de 1982, de mais dilatada capacidade operacional, não apenas pelo aumento sensível da área mas, principalmente, pela racionalização e actualização dos meios disponíveis.

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"Bom Dia Portugal" - Raúl Durão

Filipa Vacondeus


4 Em tudo semelhante ao que já se praticava na BBC (Grã-Bretanha), na TVE (Espanha) e na CBS (Estados Unidos). O denominado “Painel de Audiência” era formado por 1 100 pessoas com mais de 5 anos de idade, escolhidas pela “Teor”, a entidade responsável pela recolha e tratamento de dados, Ver maisde harmonia com os critérios internacionalmente estabelecidos para este tipo de estudo. Os 1 100 membros do “Painel”, que eram representativos dos vários estratos e camadas etárias da população portuguesa do Continente, recebiam em suas casas, pelo correio, todas as semanas, um “diário” contendo a programação da semana seguinte, com espaços reservados para a sinalização adequada ao grau de agrado de cada programa. O Gabinete de Estudos de Audiência da RTP, após a análise dos dados relativos às 3 primeiras semanas, divulgou algumas conclusões interessantes: 60% dos portugueses viam Televisão com regularidade diária; as noites de 2º feira e de sábado eram as mais frequentadas pelos espectadores, 68 e 67%, respectivamente; os programas nacionais alcançavam os maiores índices de audiência, sendo que os de produção RTP tinham auditório máximo (e correspondente agrado) na programação dominical; os programas de entretenimento obtiveram os mais elevados níveis de audiência (era ver como “Sabadabadu” e “Passeio dos Alegres” se destacavam, com 87 e 84%, respectivamente); o Telejornal figurava como o principal veículo de informação dos portugueses, com uma média de 75% de espectadores, “dos quais 77% manifestavam-lhe agrado, conceito no qual naturalmente se incluem a apreciação de isenção e pluralismo” – citação do relatório do próprio Gabinete, que acrescentava: “Outros programas não diários da área da Informação, “Aqui e Agora”, “Grande Reportagem” e “Primeira Página”, merecem igualmente elevada audiência e apreciação bastante positiva.” Voltar a fechar

Nuno Cintra Torres esteve, desde o início, ligado a este projecto. Valerá pois a pena ler no seu livro Televisão Política (edição Círculo de Leitores, Lisboa, 1996) o capítulo “O Retrato do Gosto Nacional”.

5 Palavras proferidas num dos programas comemorativos da passagem dos 25 anos de emissões regulares de Televisão em Portugal.

6 Só cerca de um mês mais tarde o Reino Unido inaugurou um período de emissão semelhante, mas não abdica de, mesmo assim, considerar que a iniciativa lhe pertenceu. Mas foi nos Estados Unidos que se iniciaram programas deste tipo, sendo mesmo um deles um grande êxito de popularidade – Ver mais“Good Morning America”. Qualquer semelhança entre este título e o adoptado pela RTP foi mera coincidência. Voltar a fechar

7 Da equipa fizeram ainda parte os jornalistas Artur Albarran, Manuela de Sousa Rama, Carlos Franco, Carlos Narciso, Carlos Ribeiro (que se ocupou do trânsito e de meteorologia, chegando a utilizar um helicóptero de observação), Estevão Gago da Câmara, Gualdino Paredes e Mário Crespo; e os produtores Joaquim Silveira, Melo Ver maisCardoso e Teresa Claro. Os dois primeiros jornalistas eram, também, apresentadores regulares. Voltar a fechar

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