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  • Década de 80
  • A RTP aos 25 Anos, as primeiras telenovelas portuguesas
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Projectos não faltavam, mas Macedo e Cunha era já um Presidente em corrida contra o tempo. A 25 de Abril, o País era chamado a eleger uma nova Assembleia da República e as possibilidades de mudança, que começavam a ter evidência, concretizaram-no. O Presidente da RTP seria, a curto prazo, uma das “vítimas” dessa mudança,27 mas, entretanto, fazia reverter para a cobertura de “Parlamento-83” (nome escolhido para a operação) o que na RTP melhor havia em meios humanos e técnicos. Como era natural que o fizesse, no claro entendimento do serviço público que à RTP compete. E, verdade, é que o resultado final do duro trabalho de muitas horas foi “a mais incisiva, directa, competente e antiespectacular noite eleitoral da RTP.”28 Os dois directores da Informação, Moniz e Cerqueira, fizeram sair do Gabinete de Planeamento e Apoio dois jornalistas, Afonso Rato – a quem foi confiada a coordenação-geral; e Amaral Marques – que se ocupou dos resultados oficiais e das análises previsionais que foram divulgadas por Teletexto. Se esta já era uma novidade interessante, mais foi o facto de ser a primeira vez que a RTP realizava uma reportagem de eleições com cobertura simultânea do Continente, da Madeira e dos Açores. E, para o conseguir, “Parlamento-83” utilizou meios diversificados: 5 estúdios em Lisboa (2 no Lumiar), no Porto e nas duas Regiões Autónomas; 3 estações terrestres de satélites (Sintra e ilhas da Madeira e de S. Miguel) para ligações nos dois sentidos; 6 equipas de exteriores para actuarem nos locais onde a actividade política prometia ser mais intensa, nas sedes dos Partidos, por exemplo; e dezenas de equipas de reportagem, um pouco por todo o País.

Para o estúdio 1 do Lumiar convergiram todos os pontos de emissão. Aí, na condução do programa, estiveram Carlos Pinto Coelho, Henrique Garcia e Margarida Marante. Com um realizador atento, Mira Godinho, e uma equipa técnica, chefiada por Gomes Artur, ainda mais, se possível. Nos estúdios do Porto, José da Silva tomou conta da operação, enquanto que, na Madeira, isso competiu a Armindo Abreu e, nos Açores, ao experiente Fernando Balsinha. Uma equipa de jornalistas também em contacto com uma outra, a trabalhar no estúdio 3 (Lumiar), transformado numa espécie de “laboratório” por onde passaram continuamente as recolhas telefónicas de dados, os tratamentos informáticos, os grafismos electrónicos por computador, a fixação das páginas de Telexto. Nesse cenário tecnológico, com Ramiro Mendes na realização, estava o sociólogo Serras Gago, também ele um habitual “frequentador” das eleições via TV e que, nessa noite de 25 de Abril, arrecadou uma excelente previsão: ainda não eram 21 h. já ele fornecia aos espectadores os resultados que estivera a estudar nas últimas horas e que, como depois se verificou, tiveram uma margem de erro mínima. Pormenor, importantíssimo, de uma emissão de luxo, na qual Carlos Pinto Coelho foi, com aquela invulgar capacidade de comunicar que se lhe reconhece, um pivô que mostrou segurança, até sob o ponto de vista técnico, juntando no momento próprio as origens de programa que se aconselhavam (ou convinham) às informações que ia prestando e cujo toque de constante actualidade tornaram credível um trabalho que, resultando embora de um enorme esforço colectivo, não dispensava um rosto. Que teve.

Entretanto, em fins de Março, o principal bloco informativo, o Telejornal, mudou de formato e passou a ser apresentado em novos moldes. De 2ª a 6ª feira preenchia o espaço 19.30-20.30 h, sendo que nos primeiros 30 minutos eram frequentes as ligações directas aos estúdios da Madeira, Açores e Porto ou a fontes de injecção propiciadas por emissores, como Fóia, Lousã e outros. Um pivô principal (José Eduardo Moniz a sê-lo com mais frequência do que qualquer outro) coordenava a sequência noticiosa que contava com vários jornalistas em imagem e alguns comentadores especializados. Foi uma fórmula que rendeu virtudes e defeitos, mas o tempo não deu para pesar uns e outros, a ver o que dava. É que também o xadrez político pós-eleitoral ditou nova ordem interna na Informação e fez parar a experiência.

Mas os ventos de mudança – que não constituíram surpresa, porque esperados – não abalaram apenas essa estrutura. Foram, uma vez mais, às raízes, pelo que também, uma vez mais, caiu um Conselho de Gerência. O que se seguiu foi nomeado pelo Conselho de Ministros a 12 de Julho e tomou posse uma semana depois. Era presidido pelo dr. João Pedro Palma-Ferreira29 e incluía, como vogais, João Tito de Morais e os drs. José Niza, António Torres Pereira e Mário Cerqueira Correia. O facto da posse ter decorrido na residência oficial do Primeiro-Ministro foi então interpretado como um desejo, “vindo de cima”, de importantizar a cerimónia, de torná-la distinta de outras anteriores que, por tanto se sucederem, praticamente se banalizaram.30 Foi assim, na presença de Mário Soares, Mota Pinto e Almeida Santos que o novo Conselho de Gerência da RTP foi empossado, vendo-se ainda no salão mais 3 ministros, pelo menos: os da Educação, da Cultura e da Qualidade de Vida. Na hora dos discursos vieram algumas declarações interessantes, embora soassem a já ouvidas noutras ocasiões, não muito diferentes daquela. Almeida Santos, depois de considerar que a Televisão, no seu aspecto formativo “é a mais importante universidade do País”, salientou que “informar com objectividade, rigor e independência e formar com responsabilidade” deverão constituir os alvos preferenciais de quem dirige a RTP. Porque, disse, “a RTP terá de ser, sobretudo, um instrumento de formação e de informação do povo português”. Palma-Ferreira, por seu turno, afirmou que a RTP “passará a observar escrupulosamente as regras imprescindíveis de três objectivos fundamentais: a absoluta isenção da Informação, a observância de uma escrupulosa fiscalização de qualidade e a prioridade ao que é fundamentalmente português, incentivando as fontes genuínas da nossa cultura, sem que no entanto desconheça o mundo que nos cerca ou caia no casticismo inconsequente.” Objectivos que, como frisou, não poderão dispensar “o concurso de todos os trabalhadores da empresa nem o apoio da inteligência e do bom senso dos que desejam uma Televisão melhor.” Considerou, por outro lado, que “as críticas extemporâneas e as polémicas precipitadas em nada auxiliarão um trabalho que se deseja sereno, embora firme, já que actuamos num campo onde, se é fácil a vanglória de algumas ideias gerais brilhantes, é difícil concretizá-las em resultados práticos.” Mas onde mais se deu a conhecer a faceta intelectual do novo Presidente da RTP foi na assunção da defesa da qualidade: “Será observada uma escrupulosa fiscalização de qualidade, de modo a impedir que, sendo a Televisão um dos grandes meios de difusão da cultura, se transforme, outrossim, num veículo de permanentes distorções e de empobrecimento intelectual.”

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Estação terrena da Marconi na ilha açoreana de S. Miguel - um novo factor de proximidade, uma nova via de circulação do sinal televisivo

Carlos Pinto Coelho


27 “Seja quem for que forme o próximo Governo, não porei o meu lugar à disposição nem penso demitir-me” – Macedo e Cunha à Capital, em 22.4.1983. Meses antes, ao Expresso (29.1.1983), considerara que no seu horizonte estavam os 3 anos de mandato para que fora nomeado. Assim, no caso Ver maisda formação de uma nova maioria, não teria de se demitir; mas que essa maioria o poderia demitir, se quisesse, era um facto. Voltar a fechar

28 Jorge Leitão Ramos, Expresso, 30.4.1983. A critica à emissão informativa da noite eleitoral, que assinou, era positiva para o trabalho da RTP. O pivô principal, Carlos Pinto Coelho, merecia mesmo parabéns pelo modo como conduzira a emissão mas, sobretudo, pelas correctas opções que tomou para garantir ritmo e qualidade. Ver maisLeitão Ramos não deixou de “bicar” – e com correcta interpretação o fez - no facto da emissão “Parlamento-83” ter sido “em certa medida, a póstuma vingança da ´Informação/2`. Vale a pena anotar que os 3 homens mais em foco nessa emissão (Pinto Coelho, Henrique Garcia e Serras Gago) é de lá que vêm. E que foi a ´Informação/2` a primeira a propor ao País previsões de resultados. Quatro anos depois da AD ter tomado o poder é curioso que a noite eleitoral da sua derrocada seja feita por homens (e segundo uma óptica) que dele foram vítimas.” Voltar a fechar

29 Era, desde 1980, director da Biblioteca Nacional, depois de, em Espanha, muito ter contribuído para a aproximação das culturas dos dois países ibéricos – primeiro, como leitor de português na Universidade de Salamanca, a seguir como Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal em Madrid. Professor da Universidade Nova, Palma-Ferreira Ver maistinha já uma apreciável obra literária, no ensaio como na ficção. Era, pois, um intelectual e gostava de ser visto (e julgado) como tal. “(...) o facto de João Palma-Ferreira ser primordialmente um homem de cultura dá-lhe especiais responsabilidades e gera, apesar do pessimismo nalgumas hostes mais cépticas da própria maioria governamental, algumas esperanças. Espera-se dele que consiga idealizar uma Televisão que seja mais do que um peão nos jogos do poder, um instrumento para servir os vagos interesses de um Estado anquilosado ou uma simples galinha de ovos de ouro para meia dúzia de negociantes (...)” – J.J. em Expresso, 16.7.1983. Em declarações à Rádio Renascença e ao vespertino A Capital, Palma-Ferreira, dias antes de entrar em funções, prometia “substanciais alterações nos esquemas de funcionamento da RTP” visando nomeadamente “uma programação que recoloque a dignidade” da cultura portuguesa e “uma informação absoluta e totalmente isenta, que não possibilite a manipulação por quaisquer grupos políticos”. Voltar a fechar

Já agora, anote-se que alguns meios socialistas se manifestaram contra a designação de Palma-Ferreira (certamente não esquecidos do apoio por ele concedido ao general Soares Carneiro), pelo que o escritor José Palla e Carmo chegou a ser dado como praticamente certo na sucessão a Macedo e Cunha. Mas como também Ver maisjá vinha sendo costume nas por demais frequentes fases de transição de presidência na RTP, outros nomes apareceram muito citados pela comunicação social: Palma Carlos, António Barreto, Walter Rosa e Lima de Freitas, por exemplo. Uns reincindiam, outros não. Voltar a fechar

30 Notícias da Tarde, 23.7.1983: “Ao contrário do que se tornara habitual, a posse do novo Conselho de Gerência da Radiotelevisão Portuguesa decorreu com a presença do Primeiro-Ministro e de muitos membros do Governo, em São Bento. A mudança de estilo não aconteceu decerto por acaso. As palavras proferidas no Ver maisacto, apesar de breves, confirmaram o indício: esta posse não quis ser apenas uma passagem de testemunho, mas sim o princípio de uma alteração profunda na orientação da Televisão em Portugal.” Voltar a fechar

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