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  • Década de 70
  • O difícil caminho para a nacionalização
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Provavelmente à mesma hora a que o Conselho de Administração ainda se considerava “em exercício”, uma Comissão Administrativa tomava conta dos destinos imediatos da RTP. Uma nota oficiosa, datada de 29 de Abril, divulgava: “A fim de assegurar a regularidade da Administração da RTP e o exacto acatamento dos princípios estabelecidos no programa do MFA, a gerência daquela Empresa foi assumida por uma Comissão Administrativa, designada com caracter transitório e em dependência directa da JSN. A referida Comissão, que exercerá as funções que lhe estão assinaladas, semqualquer remuneração especifica, é constituída pelo capitão-de-fragata Guilherme George Conceição Silva, tenente-coronel Manuel da Costa Brás e major da Força Aérea João Gregório Duarte Ferreira.”6

Um dos primeiros actos da Comissão foi chamar à sede da RTP o Director-Geral dos Serviços de Programas, Carlos Miguel de Araújo e o Director do Telejornal, Vasco Hogan Teves, para, em reunião caracterizada pela brevidade, se acertarem medidas a tomar com vista à cobertura nacional das comemorações do 1º de Maio em todo o País.

Parte da noite do penúltimo dia do mês de Abril e, praticamente, todo o último (tirando as atenções que tinham de ser concedidas às várias edições do Telejornal) foram dedicados à preparação do trabalho dos repórteres que, com as suas câmaras electrónicas no grande exterior do estádio, então baptizado 1º de Maio, em Lisboa, ou com os seus equipamentos para filmagens e eventuais captações de som, estariam sobre o terreno para narrar os factos. E a verdade é que eles conheceram grande impacto, graças à acção de todas as estruturas técnicas da RTP e dos auxílios que, necessariamente, tiveram de se buscar em áreas alheias, como a Força Aérea, que disponibilizou helicópteros que, ao longo do dia, foram baixando em terrenos adjacentes aos estúdios do Lumiar para despejo da sua pequena mas valiosa carga de bobines de filme impressionado; ou para deixar ou recolher operadores que foram acorrendo aos mais diversos pontos do País. De realçar, também, neste quadro de actividade febril, dominado pela luta contra o tempo, a acção dos correspondentes da RTP. Garantindo um esquema eficaz para os transportes (em que além do automóvel e da mota também o avião e o comboio desempenharam o seu papel), assegurado o escalonamento dos trabalhos de laboratório e de montagem, em Lisboa como no Porto (todos eles se revelaram eficientíssimos), foi assim possível ir mostrando, ao longo do dia e da noite do 1º de Maio o que se passou na verdadeira onda de manifestações populares que varreu, positivamente, todas as capitais de distrito do Continente. Antes de se fechar a emissão, um jornalista do Telejornal teve a ideia de falar para o banco do Hospital de São José. Para saber de ocorrências. A revelação foi só esta: desde há muito tempo que não se registava um tão baixo número de acidentes. Sintomático do modo como se fez e se viveu a festa.

Mas não foi só Portugal que viu o que nesse dia se passou em Portugal. Também o Brasil quis um “compacto” de imagens e a rede da Eurovisão recebeu, pelos circuitos normais, uns quantos minutos da jornada protagonizada, em euforia, pelo Povo. O interesse internacional pelo que se passava no nosso país era um facto que a RTP também tinha de ter em conta. Dele fala quem sabe, Manuela Furtado: “Foram dias que não esqueço mais. A partir do dia 27 e até 2 de Maio, vivi praticamente nas instalações da RTP. Como tinha a meu cargo as Relações Internacionais, era necessário dar assistência a todos os enviados especiais das diversas cadeias estrangeiras que vinham reportar a nossa Revolução. E esse apoio consistia num acompanhamento total, desde a marcação de unilaterais, à revelação de filmes na Tóbis, à montagem das reportagens e sua apresentação, comentada pelo jornalista num espaço criado à pressa, pois não dispúnhamos ainda de estúdio próprio.”7 Manuela Furtado escolhe, para contar, uma das muitas histórias que guarda desses dias: “Como se sabe, uma das primeiras medidas tomadas pelo Movimento das Forças Armadas, foi a de encerrar o aeroporto de Lisboa. Isso foi um obstáculo muito grande para os jornalistas dos grandes jornais e das cadeias de Televisão, que queriam ter em Lisboa os seus enviados especiais. A BBC foi uma das primeiras a solicitar circuitos para a tão desejada unilateral. Uma vez pedida, foi naturalmente marcada. Só que, no dia e quase à hora do envio, o jornalista inglês não tinha ainda aparecido nos nossos estúdios do Lumiar. Foi só em cima da hora que ele chegou. Pediu-me para lhe contar, em linhas gerais, quais as notícias mais importantes e lá foi ele para o estúdio dar a sua versão para os fiéis telespectadores da BBC. Quando terminou, contou-nos a odisseia por que tinha passado: tinha saído de Londres para Madrid; na capital espanhola, alugou um avião que o colocou em Badajoz. Depois, foi tempo de alugar um automóvel e por caminhos nunca dantes percorridos, atravessar clandestinamente a fronteira para chegar a Lisboa. Quer dizer: o primeiro repórter a enviar serviço de Lisboa, sobre o 25 de Abril de 1974... era um clandestino. Porque as fronteiras estavam fechadas...”

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1º de Maio em Lisboa

1º de Maio em Lisboa

Pela RTP, o País viu a libertação dos presos políticos


6 A Comissão Administrativa assumiu funções a 29.4.1974. No dia seguinte, o Presidente da Junta de Salvação Nacional mandou distribuir à imprensa, escrita e falada, o seguinte comunicado: “A Radiotelevisão Portuguesa passa a ser gerida directamente pela Comissão Administrativa nomeada para o efeito, ficando suspensos das suas funções, a partir Ver maisdesta data, todos os membros do Conselho de Administração, Conselho Fiscal e Delegado do Governo.” Voltar a fechar

7 Entrevista de Orlando Dias Agudo, Grande Plano, revista da COOPTV, nº 39, 1º trimestre de 1994.

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