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  • Década de 60
  • RTP aos 10 Anos
  • pag30

É, ainda, em 1963, que a RTP, posta perante necessidades urgentes de expandir a sua produção (cada vez menos compatível com os dois estúdios de que dispunha nas próprias instalações) se decide pelo aluguer do estúdio Cotinelli Telmo, pertença da sua vizinha Tóbis. Era o culminar de negociações que se arrastavam há algum tempo (provavelmente desde o início de 1962) e que, a determinada altura, chegaram a orientar-se para a compra de parte das instalações e dos terrenos. A RTP fez uma última oferta de 24 milhões de escudos, o que, mesmo na época, foi considerado um bom negócio. Mas que não avançou, talvez mais por força das pressões exercidas por homens e instituições ligados ao cinema português do que por falta de interesse da Tóbis. O Conselho Geral da Corporação dos Espectáculos foi das vozes que se levantou com mais veemência: “Em reunião de 30.5.1964, debateu a questão e manifestou a propósito grande apreensão, argumentando que tal transacção iria privar o cinema nacional do seu maior estúdio, de uma vasta área de terreno para cenários exteriores e, eventualmente, do seu mais amplo laboratório. Tal parece inoportuno no momento em que urge desenvolver o cinema português, por meio de acordos em co-produção difíceis de conseguir se a indústria cinematográfica nacional não dispuser de instalações suficientes. Além disso pensa ainda a Corporação – um estúdio para cinema difere muito de um estúdio para Televisão.” Fosse por tomadas de posição como esta, fosse por quaisquer outras circunstâncias (mas é de admitir o peso decisório da gente ligada ao nosso cinema), a verdade é que o “negócio” abortou, remetendo a RTP para a alternativa de sempre: retoma dos contactos com a Câmara Municipal de Lisboa, no sentido de conseguir dela o terreno de que necessitava para a construção do Centro de Produção de Lisboa. Mas foi a própria Câmara que, perante uma hipótese de construção em área da quinta de S. Vicente, à beira da 2ª Circular, não só inviabiliza o processo (chega mesmo ao ponto de o considerar “inconveniente”) como vai mais longe: aconselha a RTP a procurar instalar-se nos arredores de Lisboa...

Mas regressemos ao estúdio Cotinelli Telmo, ao espaço alugado pela RTP (opção que, se teve impedimentos, foram vencidos), para referir que as montagens do equipamento técnico necessário para praticamente autonomizar a nova área de trabalho decorreram em bom ritmo. De tal modo que, a 2 de Fevereiro de 1964, aí se realizou o “Grande Prémio TV da Canção Portuguesa”,42 um programa que fez apelo a recursos técnicos e humanos (estiveram envolvidas 300 pessoas) ainda insuficientemente experimentados num grande espectáculo musical em estúdio, como esse era. À época, o sistema telefónico de votação (que ligava o Lumiar às 18 capitais de distrito do Continente) constituía uma novidade, estando por detrás dele muitas horas de experiências e ensaios. Era, apenas, uma componente do programa, e tão importante como o resto. O realizador Ruy Ferrão e o coordenador técnico Formosinho Sanches, desde que apontados como responsáveis máximos pelo “Grande Prémio”, assumiram a noção das dificuldades e das limitações. E, tanto assim, que “ousaram” mesmo solicitar à Administração que os autorizasse a visitar uma das estações europeias já rodadas em espectáculos de selecção de canções para o Concurso da Eurovisão. Receberam um rotundo não! Só lhes restou fazer como sabiam e pensavam ser melhor. E, assim, estreou a RTP um dos seus programas anuais de maior popularidade. Na circunstancia deu a um cançonetista o passaporte para a Eurovisão. António Calvário pegou nele e carimbou-o, em branco, em Copenhague. Aconteceu na noite de 21 de Março, foi a primeira presença da RTP no “Concurso Eurovisão da Canção”43 e os espectadores só a seguiram porque se estabeleceu com a Espanha uma das tais ligações hertzianas, precárias. Não há lembrança de que a plateia, naturalmente interessada pela presença do nosso representante, tenha reagido (bem ou mal) ao facto de “Oração” não ter recebido um voto sequer dos parceiros eurovisivos de então. É que, se isso podia servir de consolação, a ARD (Alemanha Ocidental), a JRT (Jugoslávia) e a SRG (Suiça), também ficaram a zero; e a vencedora era latina, Gigliola Cinquetti, com uma daquelas canções que não saem do ouvido, “Non ho l`étà”.

Gigliola viria a Portugal, tempo depois, convidada pela RTP. Não temos notícia de quanto cobrou pela actuação, mas a verdade é que o tema cachês estava, na altura, ainda bem quente, porquanto Francisco José – cançonetista com mais carreira no Brasil do que aqui na sua terra, mas, ainda assim, extremamente popular – resolvera aproveitar-se da presença frente às câmaras para protagonizar (é o termo) um inédito “tempo de antena”. Uma bomba na pacatez do burgo! Mas contemos como foi. Estava-se a 21 de Julho de 1964 e o programa era um “TV Clube”. Francisco José cantou 3 ou 4 cantigas (os inevitáveis “Olhos Castanhos”, entre elas) e resolveu fazer uma pausa para conversar com o espectador. Começou por referir que os artistas portugueses lutavam tenazmente no Brasil para imporem as músicas do seu País. Até aqui, tudo bem. O pior veio a seguir, quando lamentou que esses mesmos artistas, cujo esforço em prol do País não era reconhecido, fossem discriminados também pela RTP, que não lhes oferecia retribuição digna, quando eles voltavam. Em contrapartida – foi dizendo – a RTP não se eximia a pagar altos cachês a artistas estrangeiros o que, no entender dele, Francisco José, representava uma grande injustiça. E citou dois exemplos: Charles Trenet, que recebera 60 contos por uma actuação; e Carmen Sevilha, que ainda recebera mais 40. A conversa (que foi mais ou menos como reproduzimos ) ocupava já razoável tempo de emissão e da régie não vinham decisões. Dir-se-ia que o inesperado da situação gerara uma espécie de atonia. E foi preciso que Francisco José avançasse para a câmara mais próxima e perguntasse, frontalmente, se podia continuar o programa. É que já não tinha mais para dizer mas ainda lhe faltavam duas canções. O corte de emissão, que se seguiu, correspondeu à resposta. Escusado será dizer que a Imprensa e a Rádio deram o maior destaque ao inusitado acontecimento, puxando ao sensacionalismo. Durante dias não se falou doutra coisa. Os responsáveis da RTP, esses dedicaram ao assunto várias reuniões que sempre concluíam com a mesma verdade: casos idênticos só poderiam ser evitados com a gravação prévia dos programas. A exclusão total dos directos estava, porém, longe de ser possível, dada a escassez dos equipamentos e dos suportes vídeo, por razões de custos, prioridades, etc. Entretanto, o SNI - Secretariado Nacional da Informação, foi lesto em divulgar um comunicado. Tinha o seguinte teor: “Foi superiormente determinado que se proceda a rigoroso inquérito sobre as circunstâncias em que ocorreu o condenável incidente verificado na emissão da Televisão do passado dia 21 e mandado apresentar, com urgência, relatório circunstanciado acerca das condições de remuneração dos artistas portugueses e estrangeiros, desde o início do funcionamento da Radiotelevisão. O delegado do Governo e os administradores da RTP por parte do Estado iniciaram já aqueles trabalhos.” Com efeito a acta da reunião do Conselho de Administração referente a 29 de Julho, expressa: “O sr. Presidente informou o Conselho de que tem estado a tratar com o sr. administrador Freitas da Costa e com o sr. delegado do Governo o caso do incidente provocado pelo cançonetista Francisco José no programa ‘TV Clube’ de 21.7.1964. Os dois administradores por parte do Estado vão elaborar um relatório sobre a política de ‘cachets’ praticada pela RTP e o sr. delegado do Governo vai conduzir um inquérito para determinação das razões que tornaram possível o incidente.” A RTP entregou o assunto ao advogado dr. Alfredo Manuel Pimenta, após ter tomado a decisão de mover um processo-crime ao cançonetista. Na segunda audiência do julgamento, realizada em Janeiro de 1966 (!) “Francisco José apresentou um conjunto de explicações que a RTP, pelo seu advogado, considerou satisfatórias em face do que o meritíssimo Juiz declarou o réu isento de culpa e responsável pelo pagamento do imposto de Justiça.” (acta do Conselho de Administração da RTP, 26.1.1966). Sabe-se que, na ocasião, o cançonetista “lamentou o clima emocional criado á volta da sua actuação, que jamais esteve nos seus propósitos, assim como nunca teve o intuito de afectar por qualquer modo o bom nome, a honra e o prestígio da RTP.” E assim se encerrou um caso polémico. Anos depois, Francisco José regressou aos ecrãs da RTP para cantar as suas melhores canções – entre elas, os inevitáveis “Olhos Castanhos”. Não fosse o diabo tecê-las... o programa foi previamente gravados.

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"1º Festival RTP da Canção" - António Calvário

António Calvário - o vencedor do "1º Festival RTP da Canção"

Francisco José


42 O “Grande Prémio” teve o patrocínio do SNI-Secretariado Nacional da Informação (o que nunca mais sucedeu) e destinou-se a apurar a representação da RTP ao “Concurso Eurovisão da Canção - 1964”. Foi aberto a autores e compositores portugueses, tendo um júri seleccionado 12 das 127 composições que concorreram. As Ver mais12 canções foram defendidas por 6 intérpretes, cantando duas cada um: António Calvário, Artur Garcia, Madalena Iglésias, Simone de Oliveira, Gina Maria e Guilherme Kjolner. Júris sedeados nas capitais de distrito do Continente, elegeram como vencedora, “Oração”, de João Nobre (música), Francisco Nicholson e Rogério Bracinha (versos), cantada por António Calvário. A orquestra de 36 figuras, que acompanhou todos os intérpretes, foi dirigida pelo maestro Tavares Belo. As apresentações e os registos da votação estiveram a cargo de Maria Helena Varela Santos e Henrique Mendes. Hernâni Lopes, cenografou. Como curiosidade, anote-se que 3 funcionários da RTP concorreram como autores: Jaime Filipe, António Almeida Garrett e Nuno Fradique. A revista TV (edição de 6.2.1964) escrevia: “A realização do programa decorreu de forma impecável e com nível digno de registo. Os encargos com ‘cachets’, prémios, cenários, etc. atingem a cifra de 200 contos, nos quais se não incluem as despesas com o pessoal da RTP. (...) A selecção da canção premiada terá provocado, como é de esperar em competições deste género, os mais vivos desencontros e as mais diversas opiniões. A própria marcha da votação manteve até quase ao final, grande expectativa, mas considera-se agora que o apuramento reflecte o parecer de 18 júris e se traduziu em folgada margem de votos.” Voltar a fechar

43 Antes da RTP chegar ao “Concurso Eurovisão da Canção”, já este se realizara 8 vezes. A estreia foi em Lugano, na Suíça, em 24.5.1956, tendo participado 7 organismos de televisão representando outros tantos países e apresentando duas canções cada um. Saiu vencedor o país anfitrião, com Lys Assia cantando Ver mais“Refrain” de Emile Gordaz (letra) e Géo Voumard (música).  Das edições seguintes, saíram vencedores: 1957 - Holanda; 58 - França; 59 - de novo a Holanda; 60 - de novo a França; 61 - Luxemburgo; 62 - a França, mais uma vez; 63 - Dinamarca. O número máximo de estações participantes foi atingido em 1961, com 16, mantendo-se até 1964. Voltar a fechar

Vale a pena recordar como surgiu, na Eurovisão, este Concurso. Um director da TV francesa, Jean d’Arcy, e um director-adjunto da BBC-TV, Renée McCall, apresentaram à Comissão de Programas da UER o projecto para um concurso europeu de canções (Janeiro de 1955). Reunida uns meses mais tarde (Outubro), a Assembleia Ver maisGeral da UER, sob a presidência de Sir Jean Jacob, director-geral da BBC, deu luz verde à iniciativa, designando-a por Grande Prémio Europeu da Canção. No respectivo regulamento, precisava-se: “Este Concurso tem por fim encorajar a criação de canções originais e estimular, por uma confrontação internacional, o espírito de emulação dos autores e dos compositores.” De imediato, a delegação suíça propôs que o primeiro Concurso se realizasse em Logano, no Teatro Kursaal. Assim se estreava um programa que, ao longo dos anos, tem mantido elevadíssimos índices de audiência, apesar da inconstância de nível quanto a qualidade. Voltar a fechar

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