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  • Década de 60
  • RTP aos 10 Anos
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Permanecendo, embora, cercado de alguma nebulosidade, o processo de afastamento de Manuel Figueira irá marcar a vida interna da RTP na transição de 1963 para 1964, constituindo um rude golpe para os seus colaboradores mais directos. Quando ele próprio tomou a decisão de se ir embora (23.12), isso mais não foi do que a natural consequência da série de situações desconfortáveis que lhe foram criadas e que não começaram só como Fernando Lopes justamente evoca. Há antecedentes que podem, por exemplo, ser encontrados na emissão de 7 de Março do ano anterior, quando o Telejornal fez um balanço do que considerou terem sido os seus maiores êxitos de reportagem nos 5 anos de emissões regulares da RTP, que se completavam. Explicou-se bem que era “o ponto de vista da Redacção” e que podiam ficar de fora (como ficaram) alguns acontecimentos, já que o que apenas se pretendia era focar aqueles que tinham proporcionado ao Telejornal os seus melhores desempenhos, enquanto meio de comunicação de expressão totalmente nova na sociedade portuguesa. Correia de Oliveira Ministro de Estado-adjunto da Presidência do Conselho, não entendeu assim, sentiu-se atingido e fez com que se instaurasse “um rigoroso inquérito” (teve aspectos quase policiais), que envolveu quantos haviam participado na produção do programa e, claro está, o responsável Manuel Figueira, que foi afastado das suas funções (assumindo-as o chefe da Redacção) até à conclusão do inquérito. Deste, nunca se conheceram os resultados e, curiosamente, nem as actas do Conselho de Administração lhe fazem qualquer referência. Fazem, isso sim à entrada de Eduardo Freitas da Costa para administrador por parte do Estado, “com a missão principal de orientar os serviços informativos da RTP” (acta da sessão de 4.7.1962). Quem quisesse estabelecer relações tinha, pois, um bom motivo para o fazer. Mas se o Poder estava contra Manuel Figueira – como se tornou evidente que estava, já que só fez (ou provocou) gestos que o ajudaram a cair – não se compreende como é que uma nova “Orgânica da Empresa”, instituída a 28.11.1963,38 fazia ascender Manuel Figueira a director dos Serviços de Programas (interino), mantendo-o na chefia da Divisão de Programas de Informação e Actualidades, a nova designação da Divisão de Noticiário e Desportos, então extinta. E tudo isto quando, 22 dias antes (6.11), uma acta do Conselho de Administração, revelava: “O sr. Presidente comunicou que dada a necessidade de nomear um chefe para a Divisão de Programas de Informação e Actualidades, pela promoção à função de Director de Programas do sr. Manuel Figueira e considerando-se necessário que o novo funcionário, pela natureza das suas funções, seja pessoa da confiança do Governo solicitou superiormente indicações e informou que está já escolhida pessoa idónea para o cargo.” De notar que não há, aqui, qualquer referência à “interinidade” na função de Director de Programas e que é dado adquirido que Manuel Figueira não será o chefe da Divisão de Programas de Informação e Actualidades, pois que, para o cargo, até já estava “escolhida pessoa idónea” . Que não deveria ser Manuel Maria Múrias (ou, então, seria, mas sem o saber, o que também acontece...) se atendermos ao que ele próprio revelou à jornalista Maria José Mauperrin:39 “... eu fui parar à Televisão por o Manuel Figueira ter perdido a compostura política com a morte do Kennedy. Eu lembro-me de estar em casa de um amigo a ver Televisão – na altura eu nem sequer tinha televisor – e de ter ficado um bocado ‘lixado’. Achei incrível que o Figueira estivesse a fazer um estardalhaço com a morte de um sujeito que tinha passado a vida a combater a política do Governo português. No dia seguinte telefonou-me o meu amigo e padrinho de casamento, Eduardo Freitas da Costa, administrador da RTP...”. Kennedy, lembremo-lo, foi assassinado a 22.11.1963.

A recém-criada Divisão de Programas de Informação e Actualidades perdia a sua autonomia e era integrada no sector dos Programas, uma decisão que não deve ter agradado a Manuel Figueira, que sempre se bateu por essa autonomia;40 ou foi tomada porque Figueira o impôs para aceitar os Programas? Admitimos respostas negativas para ambas as situações, tanto mais que eram cada vez mais insistentes as conversas de corredor a dar como certa a entrada de Múrias para a chefia da Divisão e muito dificilmente ele aceitaria depender de Manuel Figueira. No que este lhe retribuía, ao não admitir ter Múrias como subordinado, trabalhar com ele, vê-lo, ainda por cima, a ocupar o seu anterior lugar – aquele que verdadeiramente lhe interessava na RTP.

Os factos consumaram-se, sem estranheza. Manuel Maria Múrias assume, na véspera de Natal, o cargo de chefe da Divisão de Programas de Informação e Actualidades, não sem que nas horas imediatamente antes, redactores, realizadores, operadores e outro pessoal da área da Informação, tenham manifestado, junto do Presidente do Conselho, o seu desacordo pela substituição de Manuel Figueira. Um telegrama que ficou – com se esperava que ficasse – sem resposta. Manuel Múrias tornava-se, pois, o novo homem da Informação televisiva, com o apoio firme do administrador Eduardo Freitas da Costa que, como já vimos, foi quem formalizara o convite do Governo, e, neste, naturalmente, do dr. Paulo Rodrigues, Subsecretário de Estado da Presidência do Conselho, que tutelava a RTP.41 Um apoio que rendeu, rápido, os seus frutos, pois não há memória na RTP de um funcionário ser louvado com a velocidade com que ele foi. Em Maio de 1964, não tinha ainda completado cinco meses de serviço, e já estava a ser distinguido “pela dedicação e inteligente dinamismo postos no exercício do seu cargo.”

Múrias recebe, então, uma Redacção com 10 redactores (incluindo o chefe), para continuar a produzir o que já se produzia, nomeadamente as 3 edições diárias do Telejornal (4 ao domingo), num total de cerca de 7 h. 30 m. por semana; um sector de Desporto, com 3 redactores (incluindo o chefe), para a produção semanal de quase 4 h. de programas; e uma Filmoteca e Arquivo, com 6 funcionários do quadro e outros tantos assalariados.

Mas as novas directrizes, que emanavam da Ordem de Serviço nº 13 (28.11.1963), pediam à Divisão mais espírito criativo: uma revista da semana, um grande magazine semanal de actualidades, uma revista de actualidades científicas e técnicas, uma crónica das cidades, um documentário periódico sobre as Forças Armadas, uma rubrica sobre o Brasil e outra dedicada ao Ultramar. Esta última até já existia, mas fora do âmbito da nova Divisão. Era orientada pelo chefe de Produção, Horácio Caio, chamava-se, precisamente, “Presença do Ultramar” e apresentavam-na Manuela Paulino, Diamantino Faria e outros, entre os quais, por exemplo, Alice Cruz, que assim se estreou na RTP mesmo antes de ingressar nos seus quadros, o que sucederia cerca de 4 anos mais tarde. E, quanto ao desporto, as previsões apontavam para a integração no sector de rubricas então “no ar” como “Desporto e Natureza”, de Manuel do Amaral e Hélder Mendes, e “TV Motor”, de Joaquim Filipe Nogueira, e para o incremento das transmissões directas do exterior. Mas a área das Actualidades era aquela que, com efeito, pedia as providências mais rápidas. Para aí se transferiram as rubricas do jornalista Barradas de Oliveira, “Os Factos da Actualidade Nacional” (comentários de índole política) e de um antigo Governador Civil de Lisboa, dr. Mário Madeira, “Como Íamos Dizendo...” (comentários ligeiros ao dia-a-dia), enquanto Múrias procurava, fora da empresa (ele lá saberia porquê) um chefe para o Serviço. Não demorou a encontrá-lo. Foi buscar um antigo companheiro de jornalismo do Diário da Manhã, locutor da Emissora Nacional, Moreira da Câmara, com o qual, aliás, viria a ter vários conflitos de trabalho, apesar de um dos programas emblemáticos do novo ciclo de vida da Divisão de Programas de Informação e Actualidades ter aparecido por essa altura: “TV 7 – Revista Semanal de Actualidades.”

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Carro de exteriores - muitas vezes ao serviço da Informação

Um programa de Hélder Mendes e Manuel do Amaral


38 A Ordem de Serviço nº 13/63, preenchia, assim, os cargos dirigentes da linha hierárquica: Director-Geral - engº Barradas da Silva; Directores-Gerais adjuntos - engºs Matos Correia e Francisco Conceição; Director da Delegação do Porto - prof. dr. João Almeida Garrett; Directores de Serviços: Programas (interino) - Manuel Figueira, Operações Ver mais- engº José Alenquer; chefes de Divisão: Prog. Inf. e Act. - Manuel Figueira, Prog. Dramáticos e Musicais - dr. Oliveira Martins, Prog. Educativos e Culturais - Miguel de Araújo, Estúdios - engº Correia Pinto, Emissão - engº Nunes Marques, Financeira - dr. Mira Leal, Comercial - dr. Humberto de Araújo e Centro de Produção do Porto - engº Hermenegildo Tavares; chefes de Serviço: Telejornal - Vasco Hogan Teves, Prog. de Actualidades, Desportivos, Dramáticos, Variedades, Culturais e Didácticos - vagos, Prog. Especiais - Baptista Rosa, Prog. Musicais - dr. Filipe de Sousa, Cenografia - Octávio Clérigo, Regência - Soares Louro, Exploração - engº Vaz Pinto, Manutenção - vago, Técnico de Filmes - dr. Jaime Loureiro, Contabilidade Orçamental - Fernando Lopes, Centro Mecanográfico - Joaquim Justo, Abastecimentos - vago, Expansão e Assistência (Norte) - Alberto Magalhães, Expansão e Assistência (Sul) - Monteiro Limão, Pessoal - Filipe Batalha, Administrativo do Porto - Luís Neves e Intendência - Joaquim Relvas. Quanto aos cargos dirigentes da linha de Assistência, determinava-se: Direcção dos Serviços Técnicos de Engenharia - engº Bordalo Machado; Assessor Artístico - arqº Marcello de Moraes; chefe do Gabinete de Exame e Classificação de Programas - dr. Caetano de Carvalho; Consultor Jurídico - dr. Fernando Elói; Divisão de Relações Exteriores - dr. António Bivar; Planeamento - Fialho Rico; Secretaria da Sede - Rogado Dias; Contencioso - dr. Geraldes Cardoso e Organização - Mascarenhas Barreto. Voltar a fechar

39 “A Idade da Inocência”, de Maria José Mauperrin, Expresso-Revista, 20.7.1996.

40 E conseguira-o, em 9.11.1960, data da Ordem de Serviço que estabeleceu: “O Serviço de Noticiário e Desportos, dada a natureza da sua actividade, deixa de fazer parte dos serviços de Programas e passa a constituir uma Divisão, subordinada directamente à Direcção-Geral. Inclui o Departamento de Telejornal, o Departamento Desportivo Ver maise o Arquivo (Cinematográfico, Fotográfico e Documental) e será dotado, na medida em que as circunstâncias o permitirem, com os meios de trabalho necessários à sua actividade especial e autónoma.” Manuel Figueira assumiu as funções de chefe da Divisão de Noticiário e Desportos, deixando as de Director-Adjunto dos Serviços de Programas, que foram extintas. Voltar a fechar

41 Um ano antes, o Presidente do Conselho de Administração da RTP dava conta aos restantes membros do Conselho da entrevista que tivera com o novo Subsecretário de Estado da Presidência, "durante a qual aquele membro do Governo lhe comunicou não ter preocupações especiais em relação à RTP, por considerar Ver maissatisfatória a sua actuação e teve algumas palavras de apreço pela nossa actividade". (acta do Conselho de Administração, 11.12.1962). Mas a subserviência era manifesta: até um simples convite da Comissão Portuguesa do Atlântico para que um funcionário superior da RTP visitasse serviços da NATO, em Paris, só teve seguimento depois do Conselho de Administração ter mandado perguntar, por ofício, ao Subsecretário de Estado, se o podia aceitar... Voltar a fechar

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