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  • Década de 50
  • As Primeiras Imagens
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Às rubricas desportivas dedicou a RTP, quase diariamente, razoável espaço. Domingos Lança Moreira e Amadeu José de Freitas apresentaram a série de programas subordinada ao título “Revista Desportiva”, que incluía demonstrações atléticas no estúdio, entrevistas e acontecimentos de actualidade relatados pela imagem-filme. As rubricas dedicadas a temas da actualidade foram, aliás, daquelas que, desde logo, ganharam a preferência dos espectadores, que se deram conta de que os eventos mais importantes ocorridos além-fronteiras, escassos dias antes e, no nosso país, à distância de horas apenas, surgiam todas as noites, nos últimos minutos da emissão. “Revista Mundial” (precursora do Telejornal) englobava, nos aproximadamente 10 minutos de duração, sequências filmadas dos acontecimentos em foco – no Japão como na Alemanha, nos Estados Unidos como na Austrália. Graças a um serviço experimental da agência United Press Television, foi possível manter, na altura, um razoável nível informativo. Montagens, textos e alinhamentos dos filmes desse serviço (que o telecinema de 16 mm. instalado no sector técnico do pavilhão de Palhavã se encarregava de difundir), todas essas operações prévias, não poucas vezes executadas contra-relógio (bastava um avião atrasar-se...), decorriam numa dependência da sede da RTP, a cargo de reduzida equipa de trabalho: redactor-montador, Hélder Mendes; auxiliar de montagem, Noémia Gouveia; supervisão, dr. Caetano de Carvalho, conselheiro literário dos Serviços de Produção. Embora encarregado da filmoteca e documentação, Navarro de Andrade, colaborou, também, sempre que necessário, na parte redactorial. A sonoplastia estava a cargo de Castela Esteves e, algumas vezes, de Jorge Alves.9

A cobertura dos acontecimentos nacionais, para a qual a RTP ainda não dispunha de recursos técnicos suficientes, não deixou, todavia, de ser feita e as reportagens apresentadas com regularidade. Nem podia ser de outro modo, nessa fase de ensaios de uma programação que se pretendeu fosse o mais ampla possível e na qual os temas nacionais abarcaram cerca de 60%. Assim, a RTP firmou um acordo com João Baptista Rosa,10 que assegurou, para o período experimental de Setembro, todo o serviço filmado de actualidades portuguesas. O processamento laboratorial dos filmes, e ulterior montagem, era efectuado na Tóbis Portuguesa (ao Lumiar), em períodos de trabalho especialmente consagrados a um serviço regular, que impôs um dinamismo de acção até então pouco visto no nosso meio cinematográfico. Um exemplo, apenas: a reportagem da chegada a Lisboa do Chefe do Estado, após visita ao Ultramar. As imagens, captadas ao fim da tarde, proporcionaram à RTP o seu primeiro recorde nessa enérgica luta contra o tempo, que constitui uma das facetas mais aliciantes de qualquer serviço noticioso. Na hora própria da emissão nocturna a reportagem lá estava e agradou. O que já não agradou a uma espectadora foi ter visto o marido a assistir, com outra, ao combate de boxe Chico Santos - - Belarmino Fragoso, no parque Mayer. A reportagem tinha sido apresentada na véspera e o tal marido tivera pouca sorte: a câmara de Baptista Rosa apanhou-o em aparente delito conjugal. “Que eu bem o vi, a ele e a ela, essa desavergonhada” – vociferava a mulher nas escadas da rua de S. Domingos, exigindo ver de novo as imagens para não ter mais dúvidas, isto porque o marido continuava a teimar não ter posto os pés no boxe, pela simples razão – dizia – de os não ter levantado do tapete do escritório, onde um pré-comunicado serão durara até às tantas. Ainda se pensou em satisfazer a pretensão, mas o Navarro de Andrade é que teve mais juízo. Recebeu a mulher e, não se sabe bem como, lá a convenceu a ir-se embora. “Cá por mim ela até tem razão, mas a gente não pode é dar-lha” – sentenciou e foi-se ao trabalho.

“Comentário do Dia”, rubrica que se deverá situar, ainda, na área das de actualidade, contou com a presença de vários jornalistas profissionais, que expenderam as suas opiniões sobre os diferentes temas em foco nas agendas nacional e internacional. Ainda uma referência para a rubrica “Revista Feminina”, apresentada apenas duas vezes, mas que incluiu filmes de actualidades e comentários especialmente seleccionados para a mulher.

A programação ensaiada pela RTP na Feira Popular foi fértil em rubricas musicais. Os mais populares artistas nacionais, de parceria com alguns, poucos, estrangeiros de passagem por Lisboa, possibilitaram uma série apreciável de programas, nomeadamente do génerodito “ligeiro” – através dos quais se deixou bem expressa uma intenção de espectáculo que o futuro se encarregaria de confirmar no nível médio de agrado do espectador. Também o fado teve, na Feira, o seu “retiro” e por ele desfilaram nomes conhecidos. E, ainda, no âmbito de uma programação musical de características vincadamente populares, por lá passaram ranchos folclóricos, que se exibiram na esplanada exterior do pavilhão e criaram suficiente dose de dores de cabeça ao pessoal técnico, pois nada foi fácil, desde a movimentação das duas câmaras por entre centenas de figurantes espontâneos, ao trabalho do realizador, na busca dos enquadramentos apropriados a um número igualmente elevado de participantes. Lugar, finalmente, para a música clássica e para a arte balética. Viram-se e ouviram-se actuações de renomados artistas portugueses, para auditório mais seleccionado, a deixar, desde logo, a ideia de como a TV deve ser veículo de propaganda de artes menos abrangentes.

Referências para outros programas do período RTP-Feira... talvez “Revista de Espectáculos”, elaborada e apresentada por Ruy Ferrão, e onde houve de tudo um pouco, da música à arte de dizer, dos quadros de revista ao teatrinho de fantoches. Raúl Solnado contou, aí, as primeiras histórias da sua vida; o maestro António Melo (que, mais tarde, a RTP transformaria em vedeta ... muda) lá fez acompanhamentos ao piano; e uma grande figura do teatro, entretanto desaparecida, Alves da Cunha, recebeu, no programa, a homenagem que se justificava. Momentos de teatro também houve alguns, embora breves, com os actores a levarem ao estúdio da RTP excertos de peças que estavam a representar em palcos de Lisboa. Actores como Rogério Paulo, que contra um singelo apontamento cenográfico fez de D. Fernando e declamou o monólogo de Leonor Teles; e Sara Vale,11 que viria a falecer menos de um mês depois de ter representado na Feira “Há-de dizer Mamã”, de Alice Ogando. Naturalmente que o realizador foi Artur Ramos, pois quem havia de ser, se outro ainda não havia.12

Finalmente, para termo desta passagem em revista da programação delineada para as emissões-piloto de Setembro de 1956, uma colaboração de salientar: a que foi prestada pelo cinema nacional que, embora ainda só ao nível do documentário, já foi valiosa. Passaram em antena cerca de uma dezena de curtas-metragens produzidas no nosso país e para uma audiência que jamais haviam conhecido. Pela propaganda, também o cinema ganhou. Os pontos de choque, inevitáveis – que constam “dos livros”, que todos conhecemos e que foram uma realidade a partir do momento em que a TV se tornou um espectáculo de massas – esses só viriam mais tarde, mas nunca no plano da produção. Disse-se mesmo, na altura, que “a aliança RTP-Cinema Português começou a ser assinada na Feira”.

menu de artigos

Amadeu José de Freitas e Jorge Alves preparados para entrarem na emissão

Ilusionismo no estúdio, com o Conde d'Aguilar

O fado no seu "retiro"... no estúdio

As histórias de Raúl Solnado

Sara Vale num momento de teatro


9 Terá sido, no período da Feira, o profissional da rádio (quadro da Emissora Nacional, onde chefiava o departamento de Sonoplastia) mais requerido pela RTP. Coube-lhe a montagem sonora de documentários e de alguns curtos filmes de actualidades; a leitura do noticiário e, por vezes, a locução de programas directos. Ver maisSobre a sua estreia e face à pergunta “como reagiu você frente às câmaras de TV?”, posta por um jornalista do semanário Rádio e Televisão (15.9.1956), explicou-se, assim: “Enquanto não entrei a falar estava, na verdade, pouco à-vontade, embora aparentemente calmo. Mas assim que me vi no receptor do estúdio senti que o momento não era para hesitações e ataquei a entrevista com relativa facilidade, porque o ‘material’ dava para mangas.” Esclareça-se: o “material” eram crianças da Colónia Balnear Infantil de O Século, às quais Jorge Alves chamou “Pardalitos de S. Pedro”. Referindo-se, depois – e, ainda, no corpo da citada entrevista – às críticas que já recaíam sobre a RTP, disse: “Algumas surpreendem-me pela severidade. Julgo-me no dever de defender um grupo de pessoas que estão a dar à jovem TV portuguesa o melhor  do seu esforço; e defendo-as porque, felizmente, fui dos poucos, senão, talvez, o único português que assistiu ao nascimento da Televisão na América do Norte – muito deficiente, também no início – e isso dá-me uma certa força para, conscienciosamente, apelar para a boa vontade dos críticos mais exigentes, lembrando-lhes que devem desculpar, em grande parte, as faltas neste período de adaptação, tanto dos técnicos como dos responsáveis por programas.” Voltar a fechar

10 Assistente de realização, realizador e produtor cinematográfico, iniciou-se nas equipas de António Lopes Ribeiro (“O Pai Tirano” - 1941). Jornalista, editor e director de publicações, nomeadamente, de cinema. Pertencia aos quadros do Exército, chefiando, até Abril de 1974 (com o posto de tenente-coronel), a Divisão de Fotografia e Cinema Ver maisdos Serviços Cartográficos do Exército. Gostava de filmar e fê-lo, muitas vezes, para si, para a RTP (de que se tornou funcionário, em 1957) e para estações estrangeiras de Televisão, de que foi correspondente em Portugal. Possuía especial talento para a montagem de filme, técnica que ensinou a alguns dos primeiros jornalistas da RTP. Em entrevista à Rádio e Televisão (6.10.1956), respondeu, assim, à pergunta “como tem encarado as emissões de ensaio, sob o aspecto da produção?”: “Também neste capítulo tem havido confusão ou deficiente interpretação dos telespectadores que estão a criticar emissões de ensaio como se a Televisão em Portugal estivesse já a trabalhar em regime definitivo. Os programas que se têm apresentado constituem experiências, autênticas provas de artistas e técnicos a seleccionar para o futuro. Não se pode, portanto, exigir um nível artístico impecável. As apreciações como as críticas bem intencionadas são, nesta altura, preciosas, pois permitirão ajuizar do interesse futuro de certos programas e do valor ou da capacidade dos elementos que neles intervêm.” Voltar a fechar

11 Deve ter sido a sua última entrevista. Publicou-a o semanário Rádio e Televisão (20.10.1956). Perguntada: “acha que existe uma diferença grande entre actuar no teatro e na TV?” teve resposta no mínimo curiosa para quem ainda não tivera, nem infelizmente viria a ter, tempo suficiente para fazer justiça à Ver maisnova forma de espectáculo. Disse: “Enorme! A TV é de uma ingratidão atroz para connosco. Veja: o sr. vai ao teatro, senta-se no seu lugar e esquece o resto do Mundo e da vida. Abandona-se à fascinação do artista. Entrega-se-lhe inteiramente para que ele o faça sorrir, entristecer, odiar ou chorar. Em compensação, olhe onde estão colocados os receptores de televisão: em tabernas, esplanadas, cafés, restaurantes, casas particulares e praças públicas. Ao mesmo tempo que assiste a um espectáculo V. come ou bebe, fala com pessoas, conta e ouve anedotas e comentários, ralha com a criada e ouve chorar os filhos. Quer dizer, V. não se abandona; o artista da TV mal pode exercer qualquer domínio psicológico sobre o telespectador. É por isso que lhe digo que existe uma diferença enorme entre o teatro e a TV e, que a TV é de uma ingratidão atroz para os artistas.” Voltar a fechar

12 Com efeito, entre os profissionais que fizeram as emissões da Feira (e não foram muitos), apenas Artur Ramos já possuía conhecimentos na área criativa da Televisão. Tinha-os adquirido em Paris, para onde fora em 1951, com uma bolsa do governo francês e após se ter licenciado em filologia germânica Ver maise ter feito algum teatro, em Lisboa. Na capital francesa tirou o curso do IDHEC (Institut des Hautes Études Cinématographiques) passando depois a trabalhar na TV francesa como assistente de realizador. Ao semanário Se7e (3.9.1986), quando a RTP celebrava 30 anos sobre as emissões da Feira, A. Ramos lembrou que a sua vinda para a TV portuguesa se deveria, muito provavelmente, à amizade do seu pai com Marcello Caetano, a par do percurso que fizera em Paris. O certo é que o convite foi feito (ao que parece pelo próprio Camilo de Mendonça) e aceite. E da sua experiência na Feira, Ramos (então 31 anos) recorda: “Estávamos como numa aldeia de macacos” (refere-se ao estúdio, em que se trabalhava perante um público curioso). E prossegue: “De manhã ia para a sede. Em reunião com o director Domingos de Mascarenhas, programava a emissão da noite: filmes, telejornal (sic) e emissões de estúdio em directo (com duas câmaras) – variedades, bocadinhos de teatro, conversas, entrevistas, etc.; à tarde, ensaiava-se. Ingenuamente, pensei que a Televisão promovesse um certo convívio entre as pessoas, que se estabeleceria uma espécie de coexistência pacífica, que surgiria uma necessidade de novidade, atenuando os desníveis das concepções políticas. Mas a ilusão acabou ao fim de quatro anos: fui despedido por informação da PIDE.” Ramos regressaria à RTP em 1973 – quando o País ainda vivia a “Primavera Marcelista” – mas volta a sair, em situação de conflito, após o 25 de Novembro de 1975. Seria reintegrado 11 anos depois. Artur Ramos faleceu em 2006 (10 de Janeiro). Voltar a fechar

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