- Década de 50
- As emissões regulares
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Curioso, bem curioso e até bem crítico, é o relatório desta primeira emissão (documento interno, elaborado pela Fiscalização de Programas, dependente directamente da Administração), de que se respigam alguns passos: “21.38 - apareceu a locutora, nervosa, sem som. 21.39 - iluminação nem sempre boa (enquanto falava o dr. Domingos de Mascarenhas), com brilho nos óculos; nota-se um risco branco cortando ao meio a figura do ecrã; quando se passou para a demonstração das obras da RTP ouviram-se vozes a mandar calar. 21.46 - avaria no telecinema e suspensão da emissão; letreiro ‘o programa segue dentro de momentos’. 21.55 - nas focagens de longe, muito chão e pouca orquestra (programa ‘Canções a Granel’). 22.40 - Lança Moreira com entrada de som atrasada; jogador Rocha diz: ‘dar duas seguidas’ (programa ‘Miradoiro’). 23.13 - já não se notava o risco que separava a imagem ao meio; por vezes os bailarinos saíam para fora do plano de focagem, sobretudo os extremos (programa ‘Os Enganos do Amor’).”
Documentos como este, de análise exigente ao andamento das emissões, proporcionavam matéria para debate subsequente, através do qual se procuravam correcções e melhores objectivos. Decerto para se tornar desde logo conhecido, até o diapositivo “o programa segue dentro de momentos” não faltou a 7 de Março e seguiu sendo companhia menos agradável por muito tempo mais até que se encontraram outras soluções para as pausas forçadas nas emissões. Pelos mesmos relatórios se fica a saber que só ao décimo dia a emissão entrou à hora (21.30), havendo, antes, atrasos que variavam dos 2 aos 16 minutos; e, também, que ao 3º dia, o telecinema avariou por 4 vezes durante a transmissão de um documentário sobre o Jardim Zoológico de Lisboa, de que nem sequer se viu o fim. E, já agora, anote-se que os senhores que se ocupavam com o relato do que viam nem sempre conseguiram ser isentos, pois escreveram coisas como estas: “movimentação excelente”, “efeito geral óptimo (a propósito do “Monólogo do Vaqueiro”) e “bastante interessante e cultural” (referenciando um documentário sobre Veneza) e “nem bom nem mau – viu-se” (referindo a peça de teatro “Caminho de Sombra”). Entusiasmos de ocasião, a desculpar. Mas que dizer de comentários como estes: “Rogério Paulo abusou um pouco dos olhares indiscretos para o colo de Maria Paula” (teatro, “Um Capricho”); “notou-se que uma figurante foi focada pela câmara, insistentemente, não havendo, à primeira vista, motivo para tal (“Lisboa à Noite”, programa de fados).
O que se dava como certo é que, a partir de então, a nossa TV tinha vida própria. A “grande fornalha” estava aberta e era preciso alimentá-la, todos os dias, com programação fresca, variada, capaz de responder à tríplice finalidade enunciada pelo seu mais directo responsável: informar, educar, recrear. Domingos de Mascarenhas, as equipas de produção, os técnicos, todos viviam o mesmo tempo de esperança. Às tarefas, com dificuldades impostas por inúmeras limitações, a essas só havia que enfrentá-las, para colher alegrias ou desgostos, mas, sobretudo, experiência, onde também levedavam esses dois sentimentos.



