Nas Ondas da Rádio Os primórdios da Rádio Pública

A presente exposição - “Nas Ondas da Rádio: os primórdios da Rádio Pública” - foi desenvolvida de modo simultaneamente físico e virtual, numa homenagem aos 81 anos de existência da Rádio de Serviço Público, realçando o legado indelével que a mesma deixou no panorama radiofónico e cultural português desde os primórdios da sua existência. Decorreu, na sua vertente visitável, na Sede da RTP em Lisboa, entre 1 de agosto de 2016 e 28 de fevereiro de 2017, mantendo-se agora ativa exclusivamente no Museu Virtual.

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Nas Ondas da Rádio Aborda a temática do desenvolvimento científico que permitiu a gravação, reprodução e transmissão da voz humana através do ar, lançando as bases da radiodifusão, em articulação com as experiências pioneiras de rádio em Portugal e a sua evolução até à criação da Emissora Nacional. A partir daí, o enfoque principal é dirigido para as diversas áreas e iniciativas em que a rádio pública se multiplicou no período inicial da sua existência, entre 1935 e sensivelmente o final da segunda guerra mundial.
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A génese da radiodifusão

O desenvolvimento científico da eletricidade, ao longo do século XIX, esteve na génese de sucessivas invenções que construíram a história das telecomunicações: primeiro o telégrafo, (1837), depois os cabos submarinos (década de 1850), seguidos do telefone (1876), a partir do qual se tornou possível a transmissão de voz.

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A génese da radiodifusão

Neste caminho histórico teve também enorme importância o desenvolvimento de aparelhos capazes de gravar e reproduzir a voz humana, cuja origem remonta a 1860, Fonautógrafo de Scott, seguida do Tinfoil de Edison (1877) que evoluiria rapidamente para o fonógrafo, sendo igualmente de destacar nesta fase inicial o gramofone.

No final do século XIX, surge um novo conceito de comunicação à distância, a radiodifusão: em 1897, Guglielmo Marconi conseguiu transmitir sinais através das ondas hertzianas, dando início à história das comunicações sem fios; em 1906, Lee DeForest desenvolveu a válvula de 3 elétrodos, abrindo caminho para a transmissão de voz através do ar; no mesmo ano, Fessenden transmitiu música e voz via “rádio”, lançando as bases da radiodifusão. 

O potencial da rádio como meio de comunicação de massas evidenciou-se depois da I Guerra Mundial, resultando em boa parte dos processos de inovação decorrentes do conflito e do desenvolvimento industrial que lhe sucedeu.  

Em Portugal, as primeiras experiências de Rádio foram realizadas em 1914 por Fernando Gardelho Medeiros (Rádio Hertz). O entusiasmo pela radiodifusão levou à multiplicação de emissores particulares, alguns de dimensão muito reduzida e que essencialmente transmitiam música gravada e palestras. No ano de 1924, Abílio dos Santos Júnior iniciou as suas emissões experimentais, com o indicativo P1AA, começando a emitir de forma regular, em 1925. Em 1931, surge o CT1GL, Rádio Clube Português.

 Cronologia

 

1896 Bolonha. Marconi consegue comunicar com sucesso, por ondas eletromagnéticas, a uma distância de 3 Km.
1897 Transmissão de sinais radiotelegráficos entre navio e costa, a uma distância de 18 milhas.
1901

Primeiras experiências de telegrafia sem fios em Portugal, realizadas pelo Capitão Severo da Cunha do Regimento de Engenharia. É emitido um parecer que conduz à primeira regulamentação da TSF no País.

Decreto que define como monopólio do Estado (…) o estabelecimento e exploração dos sistemas de telegrafia elétrica, classificados como “telegrafia sem fios condutores, telegrafia hertziana, telegrafia etérica” ou semelhantemente, destinadas a permutação rápida de correspondência.

Marconi estabelece com sucesso a primeira transmissão radiotelegráfica transatlântica.  

1902 O Ministério da Marinha e a Direção Geral dos Correios e Telégrafos realizam experiências radiotelegráficas a bordo do cruzador D. Carlos.  
1903 Poulsen desenvolve o arco elétrico.
1904

Ambrose Fleming desenvolve o díodo, válvula de dois elétrodos que permite a transmissão da voz por rádio.

.Fessenden transmite música e voz via rádio pela primeira vez.  

1906 .Patente do Audion, válvula de 3 elétrodos desenvolvida por Lee DeForest. Permite amplificar o sinal e aumentar a capacidade de transmissão, tendo lançado as bases da eletrónica.
1908 Introdução do sistema de onda contínua, desenvolvido até 1914. 
1914

Início da I Guerra Mundial.

Primeiras experiências radiofónicas em Portugal, com a “Rádio Hertz” de Fernando Gardelho Medeiros.   

1916 Marconi inicia experiências de transmissão com ondas curtas. 
1917 Início das transmissões do emissor CT1AB, o primeiro posto a obter licença de TSF.
1918 Fim da I Guerra Mundial.
1919

.Primeira experiência oficial de transmissão radiotelefónica em Portugal, entre o posto da Marinha em Monsanto e o navio Douro, a cerca de 300 km de distância.

.Primeira emissão rádio com horário e programação a partir da Universidade do Wisconsin, nos EUA.  

A estação KDKA faz a primeira transmissão mundial, com horário e programação.  

1920 .Primeiros ensaios de transmissão entre a América do Norte e Inglaterra, através de onda curta. 
1921 .São atribuídas as primeiras licenças para estabelecimento de estações emissoras de radiodifusão atribuídas na América do Norte.
. É criada a BBC (British Broadcasting Company), formada por vários fabricantes de equipamento radioelétrico. As primeiras emissões têm lugar no estúdio da Marconi em Londres.
1922 José Celestino Soares funda a Rádio Academia de Portugal, associação de amadores de TSF com carácter científico.
1923 .Iniciam-se emissões regulares de rádio em Portugal, através da Rádio Lisboa (P1AA, também conhecida por PIM-Rádio.), a partir dos Armazéns do Chiado.
1924

.Primeiro número da revista A TSF em Portugal.

.Criação da Sociedade Portuguesa de Amadores de TSF (extinta em 1925).  

1925 Abílio Nunes dos Santos, fundador da Rádio Lisboa, instala um novo emissor, a Rádio Portugal (CT1AA).
1926

É criada a Rede dos Emissores Portugueses, presidida por Eugénio de Avilez.

Por iniciativa do capitão Botelho Moniz, é criado um pequeno emissor, o CT1DY, que deu origem ao Rádio Club da Costa do Sol.  

1928

É criada a Hertziana (Lisboa).

Clube Radiofónico de Portugal (Lisboa) Rádio Rio de Mouro (Rio de Mouro)  

1932

Rádio Graça (Lisboa)

Rádio Amadora (Lisboa)  

Invicta Rádio (Porto)  

Rádio Clube Lusitânia (Porto)  

1933

Rádio Luso (Lisboa; financiamento alemão)

Rádio S. Mamede (Lisboa)  

Electro-Mecânico (Porto)  

Casa Branco & Irmão (Porto)

 

 
 
A criação da Emissora Nacional

Em 1932, Duarte Pacheco, Ministro das Obras Públicas e Comunicações, promove a constituição de uma rádio estatal, a Emissora Nacional. Em Abril de 1934 tiveram início as emissões experimentais, assinaladas por uma programação que procurava demarcar-se dos “programas ligeiros” das rádios privadas, assentando sobretudo na transmissão de música erudita e de mensagens didáticas e propaganda, que frequentemente lhe valeram o epíteto de “Maçadora Nacional”. Em Junho de 1934 foi constituída a Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, dirigida pelo Maestro Pedro de Freitas Branco.

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A criação da Emissora Nacional

A 1 de agosto de 1935 iniciaram-se as emissões oficiais da EN e a 4 de Agosto de 1935 foi inaugurada solenemente, tendo por primeiro Presidente Henrique Galvão, que reformulou a sua programação para emissões musicais mais acessíveis e atraentes para o público, embora mantendo uma orientação pedagógica e cultural. Nestes primeiros anos, a EN acompanhou o desenvolvimento tecnológico internacional, estando mesmo na linha da frente entre congéneres europeus no que respeita, por exemplo, à gravação de emissões, introduzida em 1936. 

Em 1936 foram criados os Jogos Florais. Em 1937 iniciou-se a “Hora da Saudade”, programa, originalmente, dedicado à frota bacalhoeira. Em 1938, Olavo d’Eça Leal estreou os ”Diálogos”. Em 1939 começou a escutar-se “Que Deseja Ouvir? “. Em 1938, existiam na Empresa as seguintes orquestras e agrupamentos: Grande Orquestra Sinfónica; Orquestra Genérica; Orquestra Popular; Orquestra de Câmara; Orquestra de Salão; Sexteto A; Sexteto B; Quarteto; Trio.

Também o Teatro teve um papel de relevo na programação da EN, iniciando-se, em 1942, com a transmissão das primeiras revistas radiofónicas e folhetins, destacando-se neste último género “As Pupilas do Senhor Reitor”. Nos anos quarenta destaca-se “Domingo Sonoro”, com uma rubrica que se tornou um fenómeno da rádio portuguesa, “O Zéquinha e Lélé”, interpretado por Vasco Santana e Irene Velez.

São quase infindáveis os sons, os personagens e os programas que fizeram a pré-história e a história da Rádio em Portugal. O legado da Emissora Nacional, nestes primeiros anos, foi preponderante. Para isso, muito contribuíram as vozes de Áurea Rodrigues, Fernando Pessa, Mary, Maria Leonor, Pedro Moutinho, D. João da Câmara, Artur Agostinho, Jorge Alves, Fernando Mata, Igrejas Caeiro, Olavo d’Eça Leal, Nuno Fradique, Moreira da Câmara, Francisco Mata, entre outros, que marcaram, de forma indelével, o panorama radiofónico e cultural português. 

Cronologia

 

1930  

A Administração Geral dos Correios e Telégrafos é encarregada de abrir concurso para a aquisição de duas estações de radiodifusão.  

 O decreto n.º17 899, confere ao Estado o monopólio (…) dos serviços de radiotelegrafia, radiotelefonia, radiodifusão, radiotelevisão e outros que venham a ser descobertos e que se relacionem com a radioelectricidade (…), alargando os mecanismos de intervenção estatal através da criação do Conselho de Radioelectricidade.

O Conselho de Radioeletricidade aprova as bases do concurso para fornecimento e instalação de estações de radiodifusão em Lisboa e no Porto.

1931  

Comercialização dos primeiros recetores de rádio com o nome das estações no quadrante.

Criação do Rádio Clube Português, resultante da fusão do Rádio Club de Portugal e do Rádio Club da Costa do Sol. Inicia-se a profissionalização da rádio em Portugal.  

      
1932  

.É lançado pela Blaupunkt o primeiro auto-rádio da Europa.

A Emissora Nacional inicia emissões experimentais em onda média.  

I Congresso Nacional de Radiotelefonia, promovido pelo jornal O Século.  

1933  

Criação da Direção dos Serviços Radioelétricos, na dependência da Administração Geral dos Correios e Telégrafos. Entre as suas funções destaca-se a orientação, exploração, instalação e funcionamento das Estações Nacionais de Radiodifusão.

Decreto que organiza os serviços radioelétricos e estúdios da Emissora Nacional. Define-se o pagamento obrigatório de uma taxa de contribuição por todos os proprietários de emissores ou recetores radioelétricos. O Conselho de Radioeletricidade é extinto, sendo criada a Direção dos Serviços Radioelétricos, dependente da AGCT.   

1934  

Primeiras emissões experimentais da Emissora Nacional. 

É criada a Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, dirigida pelo Maestro Pedro de Freitas Branco.  

1935  

A AEG Telefunken apresenta o Magnetofone, para gravação em fita magnética.

Descoberta da Modulação de Frequência (FM) por Edwin Armstrong.  

O CT1HZ transmite pela primeira vez um jogo de futebol em Portugal durante o encontro entre a Associação Académica de Coimbra e o União de Coimbra  

Inauguração oficial da Emissora Nacional, na dependência da Administração Geral dos Correios e Telégrafos.  

Anunciam-se as primeiras experiências radiofónicas de ondas curtas em ligação com o Brasil e colónias portuguesas.  

1936  

A Emissora Nacional inicia as gravações em disco.

Primeiras emissões experimentais da Rádio Renascença.  

1937  

O emissor de onda curta da Emissora Nacional, em Barcarena, é reforçado de 2kW para 10kW.

Lei n. 1 959. Promulga as bases da reorganização dos serviços dos correios, telégrafos e telefones. A Administração Geral dos Correios e Telégrafos passa a designar‑se Administração-Geral dos Correios, Telégrafos e Telefones (CTT).  

1938   Encerramento da CT1AA-Rádio Colonial.
1939  

Início da II Guerra Mundial.

A notícia da invasão da Polónia pelas tropas alemãs é transmitida pela Emissora Nacional.  

1940   Plano de Radiodifusão Nacional - Os serviços da Emissora Nacional são reorganizados e autonomizados dos CTT.
1941  

É inaugurado o Emissor Regional de Ponta Delgada, Açores.

Início das transmissões da EN em português para os EUA e Brasil  

1943   Entra em funcionamento o emissor de onda média da EN em Castanheira do Ribatejo.
1944   A Emissora Nacional é colocada na dependência do SPN/SNI.
1945  

Novo emissor de onda curta da EN, em Barcarena.

Início da autonomização do Programa 2 (atual Antena 2), em sequência da separação de emissores.  

Fim da II Guerra Mundial.  

1947   Levantamento da proibição de funcionamento de emissores radioamadores.